
Luis Nassif
A entrevista de José Serra ao “Valor Econômico” (http://migre.me/rcQNt) traz uma informação relevante e duas críticas impróprias.
A informação relevante é a confirmação de que não passava de balão de ensaio (empinado pelo próprio Serra) a história de que ele seria o Ministro da Fazenda em um futuro governo Michel Temer.
Era um balão acompanhado de visão prospectiva: ele seria Ministro da Fazenda em um mandato Temer e depois saltaria para a presidência da República, assim como Fernando Henrique Cardoso no mandato Itamar.
A entrevista mostra que o balão murchou.
A primeira crítica imprópria é quanto ao “vácuo de poder”.
É correta, porém imprópria partindo de quem a formula. Ao longo de sua vida pública, Serra escondeu-se em praticamente todos os momentos de crise que enfrentou.
Alguns exemplos:
Sumiu no segundo semestre de 1995, quando os juros do real jogaram a economia em uma crise sem paralelo e a dívida pública explodiu.
Enquanto governador de São Paulo sumiu durante as enchentes que devastaram o estado e não coordenou uma reunião sequer da Defesa Civil.
Escondeu-se quando a Polícia Civil cercou o Palácio, por não ser recebida por ele. Cedeu imediatamente a todas as demandas, desdizendo tudo o que disseram antes sobre responsabilidade fiscal.
Na crise de 2008 escondeu-se dos industriais da Abimaq, a ponto de eles ameaçarem cercar o Palácio junto com os metalúrgicos da CUT e da Força Sindical.
Em todo seu período de governo do estado, sequer comandou uma reunião de secretariado.
Portanto, se estivesse agora à frente do país, seu comportamento não seria muito diferente do de Dilma.
A segunda crítica imprópria é quanto à ausência de uma política industrial.
É correta no que toca a Dilma; imprópria porque, no governo de São Paulo, Serra foi de uma inércia a toda prova e, em plena crise de 2008, promoveu um arrocho fiscal sem precedentes, com a implantação da substituição tributária. A mesma política que critica agora em Dilma.
Governando um estado com os melhores institutos de pesquisa e universidades do país, a maior rede de cidades médias, as maiores empresas, foi incapaz de articular uma política mínima de competitividade.
Mesmo o PSDB tendo em seus quadros os principais formuladores de políticas de inovação, não assumiu uma iniciativa sequer na área, porque sua mente persecutória passou a tratar como de inimigos todas as iniciativas que vinham da área acadêmica.
Nas universidades, a figura símbolo da era Serra não foi Britto Cruz. Foi João Grandino Rodas.
Sobre a política econômica
As críticas em relação à política econômica são corretas.
Não se imagine Serra com conhecimento e experiência para trabalhar os instrumentos de políticas públicas. Ele é um observador da realidade. Seria um bom colunista de economia, jamais um bom Ministro.
Durante o Real, embora Ministro do Planejamento, manteve-se mudo nas discussões acerca dos desdobramentos do plano, pela incapacidade de entender plenamente a posologia das políticas cambial, monetária e seus efeitos sobre a inflação. Nas poucas vezes em que interveio espantou os economistas do Real pelo desconhecimento da matéria.
Mas é um analista de bom senso que, na entrevista, centra fogo nos seguintes pontos:
as metas fiscais irrealistas;
elevação dos juros sem haver os pressupostos da atividade econômica aquecida, inflação de demanda ou crise do balanço de pagamentos;
o impacto dos juros na elevação da dívida bruta;
as operações de swap cambial, com um custo fiscal altíssimo;
o descompasso entre o Banco Central, Fazenda e Executivo.
Na sequência, a entrevista se compromete.
Nos anos 80, Serra enviava para os jornais entrevistas prontas, com perguntas e respostas prontas. Nesta entrevista, a facilidade com que Serra distribui números é típica de respostas escritas. E a citação de uma frase em francês – idioma que ele não domina – poderia induzir os críticos a imaginar que tenha voltado ao velho método de se auto-entrevistar.
suspeita é reforçada pela pergunta abaixo, típica das entrevistas que, nos anos 80, ele enviava para publicação na Folha com perguntas e respostas prontas:
Valor: Seu mandato tem alta taxa de sucesso. É campeão de propostas aprovadas. A parceria com o presidente do Senado, que comanda a pauta, ajuda?
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