sexta-feira, 5 de junho de 2015

Como a fórmula Levy-Tombini-Rousseff não resolve



Luis Nassif

O jogo econômico é muito mais simples e objetivo do que supõe os livros e as teorias econômicas.
Na academia e na imprensa há uma disputa entre linhas econômicas que obedecem muito mais a 
conceitos ideológicos, disputas de espaço, conquista de reputação, do que à análise objetiva dos fatos 
econômicos.
É o que ocorre com essa tentativa de caracterizar os erros recentes de política econômica como 
inerentes ao que chamam de “nova matriz econômica”.
***
Essas interpretações fundam-se em um conjunto de falácias muito mais próximas da fé religiosa do 
que da razão. Mas como vem embrulhadas em termos técnicos, passa ao incauto a impressão de ter 
base científica.
***
Há meses e meses venho afirmando que essa ideia de ajuste fiscal rigoroso com taxas de juros 
elevadas não fecha as contas.
A razão é óbvia:
Fixa-se um superávit primário de 1,2% do PIB. O primário leva em conta apenas receita menos 
despesa, incluída a conta de juros. Ao mesmo tempo joga-se a Selic nas alturas e tranca-se o crédito.
Os dois movimentos derrubam o PIB (Produto Interno Bruto) e a arrecadação fiscal, tornando mais 
drástico ainda o corte fiscal para se adequar aos 1,2% do PIB.
Para uma taxa real de juros (descontada a inflação) na faixa de 4 a 5%, não há superávit primário que 
dê conta de compensar o aumento da dívida via juros.
Mas espalhou-se pelo mercado – a na cabeça da presidente Dilma Rousseff – a convicção de que 
esse caminho levaria à redução da dívida pública como proporção do PIB, à volta automática do 
crescimento e à recomposição automática da sua base de apoio político.
***
Ontem a Moody’s – a mais importante das agências de risco – divulgou seu diagnóstico sobre a 
economia brasileira.
O nível da dívida pública brasileira continuará a subir, porque o ajuste fiscal é apenas uma das 
variáveis que determina essa relação.
Com o crescimento econômico menor, haverá declínio das receitas fiscais, que será apenas 
parcialmente compensado pelo corte de gastos.
Com a queda da receita, é improvável que se alcance o superávit primário de 1,2% em 2015 e de 2% 
em 2016.
Mesmo que alcance as metas de superávit, as altas taxas de juros continuarão a pressionar a dívida 
pública.
***
Mesmo assim, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) cometeu a imprudência de 
aumentar em mais 0,5 ponto a taxa Selic, elevando-a a 13,75%.
Não há visão de conjunto, sistêmica, por parte da Fazenda, do Banco Central e da presidente da 
República. A planilha definitivamente substituiu o bom senso e um mínimo de visão prospectiva.
O Ministro da Fazenda Joaquim Levy mira uma meta de corte sem levar em conta os reflexos sobre a 
receita. O Copom define uma meta de juros sem levar em conta os impactos sobre a dívida e 
recessão não é problema dele. A presidente Dilma Rousseff avaliza esse duplo torniquete sem levar 
em conta os impactos do agravamento da recessão sobre a governabilidade.
***
A economia lembra em muito o jogo de xadrez. Quando se mexe uma peça, muda-se completamente 
o equilíbrio do tabuleiro. O grande jogador consegue antever o novo equilíbrio oito ou dez jogadas à 
frente. O neófito não consegue prever o lance seguinte.
__________________________________________________

Nenhum comentário: