quarta-feira, 3 de junho de 2015

A ‘revelação’ de Mariana Godoy sobre os apresentadores da Globo


Agora ela pode fazer perguntas

por : Paulo Nogueira

As pessoas pareceram surpresas, nas redes sociais, com uma declaração da jornalista Mariana 
Godoy, ex-Globo, sobre os apresentadores da emissora.
Numa entrevista, ela se disse feliz com seu novo emprego na Rede TV porque, finalmente, pode 
fazer perguntas, e não simplesmente ler as que os outros fazem por ela.
Outros não. Outro: Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo.
As pessoas achavam que os apresentadores da Globo tinham luz própria para fazer alguma coisa 
além de declamar.
Não.
Mariana fez questão de incluir Bonner na lista dos que são papagaios de Kamel.
Numa discussão entre jornalistas no Twitter, alguém ponderou que, a rigor, não havia novidade.
Mas outro notou que era a primeira vez que alguém, com autoridade, dizia tão cruamente isso.
A primeira constatação é que Kamel não é um grande perguntador, dado o nível de entrevistas da 
Globo.
A segunda é que ele é um centralizador doentio. Um chefe inspirador recruta ou forma 
apresentadores capazes de fazer perguntas a quem quer que seja.
Se seus comandados não são capazes de conduzir uma conversa, o problema está em você, e não 
neles.
Ensine-os a pescar, em vez de dar-lhes os peixes.
Outra coisa é como é ruim trabalhar na Globo. A emissora dá visibilidade, mas não oferece as coisas 
que realmente tornam atraente uma atividade, a começar por autonomia.
Você pode miseravelmente pouco quando não é um Marinho na Globo, ou alguém de seu círculo 
mais próximo.
O que Mariana não disse, por ir além do que ela via, é que as perguntas de Kamel são devidamente 
aprovadas previamente por João Roberto Marinho, o irmão que cuida do conteúdo da Globo.
Não me refiro, obviamente, às perguntas triviais, mas às que verdadeiramente contam.
Por exemplo, as que foram feitas no Jornal Nacional aos candidatos à presidência.
O que os apresentadores devem saber fazer é lidar com as respostas. Patrícia Poeta, pelo que se 
noticiou, não foi aprovada na maneira como encaminhou, ou desencaminhou, a entrevista com 
Marina, e foi tirada do JN.
Mas o mais relevante, no debate, é que o que ocorre na Globo é um lugar comum nas corporações de 
mídia. Só quem manda são os donos.
Na Veja, o diretor de redação Eurípides Alcântara executa, apenas, as vontades dos Civitas.
Em outros tempos, você tinha um certo equilíbrio no jornalismo brasileiro. Os donos, 
compreensivelmente, eram de direita. Mas as redações eram, também compreensivelmente, 
progressistas.
Na Folha, Claudio Abramo puxava o jornal para um lado e Octavio Frias para o outro, e o resultado 
era um conteúdo frequentemente instigante.
O equilíbrio se perdeu a partir de 2003, com a ascensão de Lula.
Os donos buscaram obsessivamente chefes de redação afinados com eles, ou ao menos 
completamente submissos, como Eurípides na Veja ou Kamel na Globo.
Para facilitar seu trabalho, estes também se cercaram de replicantes.
Na Globo, ascenderam, por essa lógica, jornalistas como Erick Bretas, diretor de mídias digitais da 
empresa – e com um viés antipetista tão intenso que, em março, ele convocou seus seguidores no 
Facebook para uma manifestação contra o governo. Avisou, é claro, que estaria na rua.
Ainda na Globo, outro jornalista que cresceu sob tal ambiente é Diego Escosteguy, que fez da Época 
uma Veja, como se uma não bastasse.
Semanalmente, sob Escosteguy, a Época, como a Veja, se dedica a semear denúncias “bombásticas” 
contra Lula e o PT que não dão em nada.
A Época não se detém diante de nada. Na campanha presidencial, publicou uma pesquisa de um 
certo Instituto Paraná pela qual Aécio hoje estaria na presidência, tamanha a vantagem que lhe 
davam.
Mais recentemente, o mesmo instituto foi usado pela revista para dizer que, se fossem hoje as 
eleições, Aécio levaria. O leitor poderia responder: se fosse pelo instituto e pela revista, Aécio já 
teria sido eleito em outubro.
Esta, enfim, é a mídia brasileira. Se não é a pior do mundo, disputa esse título acirradamente.
Mariana Godoy apenas mostrou, para os iludidos, como é o ambiente dentro das redações: péssimo, 
como o jornalismo que sai delas.
__________________________________________________

Nenhum comentário: