por Raymundo Costa no Valor
Foi dura e tensa a última conversa de Lula com a presidente Dilma Rousseff e seu staff palaciano.
Enquanto estavam a sós, o ex-presidente, por mais de uma vez, elevou o tom de voz, e quem estava
do lado de fora pode ouvir muito bem. Auxiliares de Dilma tentaram minimizar o ocorrido.
Contaram que a conversa corria solta, quando os outros convidados para a reunião começaram a
chegar, e os dois, sozinhos em uma sala do Palácio da Alvorada, não precisavam gritar para serem
ouvidos por quem estava no compartimento contíguo.
Tons à parte, o fato é que Lula fez questão de deixar claro que não virá mais a Brasília, para se
encontrar com Dilma Rousseff, se tiver apenas acumulado mais horas de reunião com a presidente da
República, para tudo permanecer como está no governo. Como de outras vezes.
O nervosismo e a impaciência do ex-presidente da República têm uma explicação: não são apenas o
governo e a popularidade pessoal de Dilma que estão ao rés do chão. A crise começa a afetar
também a imagem de Lula, como já havia afetado antes a imagem do PT.
Contam os interlocutores de Lula que esta foi a primeira vez que ele levantou a voz, numa conversa
com a presidente da República. As narrativas da reunião são de que o ex-presidente falou português
claro e sem rodeios. Discorreu sobre a necessidade de mudança na equipe política sem nenhum
constrangimento. Também com desenvoltura disse que Dilma precisava dialogar mais, pois o Brasil
é um país muito grande e complexo e não pode ter um governante que não exercite a boa prática do
diálogo. Também segundo os interlocutores do ex-presidente, ele defendeu a troca de Mercadante
pelo ministro da Defesa, Jaques Wagner, e a designação de um papel especial para o vice-presidente
da República. Em duas palavras: reforma já.
Lula, na semana passada, após a reunião com Dilma, convencido de que desta vez a conversa no
Alvorada teria consequências práticas. Boa parte da conversa vazou, não por acaso.
Mas auxiliares da presidente também informaram que ela estava considerando seriamente a reforma
ministerial, a dúvida era quando fazer. A semana escorreu até o fim, primeiro Dilma disse que faria
uma reforma pontual, apenas para preencher a vaga de Cid Gomes na Educação, e depois
condicionou qualquer mudança à aprovação do ajuste no Congresso. "É necessário que se aprove o
ajuste fiscal e que se use o Orçamento para fazer um contingenciamento", disse, em evento no Rio
Grande do Sul. "A partir daí todas as demais medidas serão tomadas".
Até o início da noite de ontem, pelo menos, o PMDB não tinha expectativas de uma mudança real no
governo Dilma.
Os dirigentes do partido acham que a presidente não quer tirar Mercadante nem Pepe Vargas do
Palácio do Planalto, enquanto isso, pretendem tocar a própria agenda no Congresso, que passa pela
reforma política e pelo projeto que reduz o número de ministérios. Se Dilma não quer diminuir o
espaço do PT no governo, o PMDB trata de reduzi-lo com a aprovação de uma lei.
O ajuste fiscal terá o apoio do partido, mas o projeto que revê a desoneração da folha de pagamentos
deve receber emendas dos pemedebistas, para tornar gradual sua implantação.
O argumento é que as empresas terão de mudar o planejamento feito para o exercício de 2015.
Na percepção de Lula, do PT e maioria dos aliados a crise é obra de Dilma e a saída depende dela.
Para usar um termo de uso frequente no partido, a crise não será "socializada".
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