sábado, 14 de fevereiro de 2015

Como fazer a escolha certa para o Supremo


Roosevelt teve problemas sérios com a Suprema Corte

Por : Paulo Nogueira

Dilma está prestes a indicar um novo ministro do STF.
Uma história exemplar, neste capítulo, foi protagonizada pelo presidente americano Franklin Delano 
Roosevelt.
Roosevelt se reelegera espetacularmente em 1936, mas ele tinha um problema à vista. A Suprema 
Corte era conservadora, reacionária, e ele sabia que era grande o risco de a Justiça anular medidas 
fundamentais de seu New Deal – um conjunto inédito de medidas de proteção aos trabalhadores 
americanos.
Eram – são ainda – nove os integrantes da Suprema Corte. Cinco simpatizavam com as causas de 
liberalismo econômico dos republicanos.
Roosevelt, democrata com forte visão social, decidiu que tinha que agir.
Ele encaminhou uma proposta ao Congresso que lhe permitiria nomear um juiz a cada integrante da 
Suprema Corte que tivesse mais que 70 anos. Era, e é, um cargo vitalício.
Roosevelt embalou sua tentativa de controlar a Suprema Corte com argumentos etários. “Em casos 
excepcionais”, alegou, “alguns juízes mantinham vigor físico e mental em idade avançada. Mas 
aqueles não tão afortunados eram frequentemente incapazes de reconhecer as próprias limitações.”
Sangue novo nos tribunais iria revitalizar a Justiça, afirmou.
O assunto fascinou os americanos. Durante meses jornais, revistas e rádios discutiram obsessivamente 
o gesto de Roosevelt.
Adversários chegaram a compará-lo a Hitler. Alguns lembraram que Goete completou Fausto aos 80 
anos e Ticiano pintou sua clássica Batalha de Lepanto aos 98.
A revista Time previu uma vitória tranquila de Roosevelt no Congresso, mas afinal ele foi derrotado.
O que os congressistas não deram a Roosevelt os eleitores, afinal, deram. Ao longo de sua longa 
presidência – três mandatos consecutivos mais fragmentos de um quarto interrompido pela morte, em 
1945 – ele nomeou juízes que lhe deram maioria confortável na Suprema Corte.
Este é um ponto importante: nos Estados Unidos, o presidente nomeia juízes que compartilham das 
ideias essenciais do seu partido.
Ninguém fala em aparelhamento ou coisa do gênero. É a recompensa pelo triunfo nas urnas.
No Brasil, ninguém nunca falou em aparelhamento. FHC nomeou, por exemplo, Gilmar Mendes, e 
não houve questionamento nenhum.
As acusações de aparelhamento vieram apenas quando o PT chegou ao poder.
Lula indicou para o STF Eros Grau, que há poucos meses deu uma entrevista na qual dizia que sua 
militância no PSDB era amplamente conhecida.
Nomeou, também, Joaquim Barbosa, que deu no que deu.
A falta de sentido neste tipo de atitude se revelaria espetacularmente no Mensalão, quando a maioria 
dos juízes se comportou como oposicionistas.
Eram o equivalente aos juízes que Roosevelt abominava. (Quatro deles eram conhecidos como os 
Cavaleiros do Apocalipse.)
Escolher alguém que simpatize com Aécio significa, por exemplo, que se uma emenda sobre um tema 
como financiamento privado de campanhas chegar ao STF você pode contar com um voto contra.
Basta ver o pedido interminável de vista de Gilmar num projeto que prevê exatamente o fim do 
financiamento privado.
É jogo sujo falar em aparelhamento, em bolivarianismo e coisas do gênero.
É um disparate um presidente indicar um ministro do STF que não tenha a mesma visão de mundo que 
ele.
Dilma tem que ter isso bem claro na hora de nomear o substituto de Joaquim Barbosa – uma figura de 
triste memória na vida jurídica e política nacional.
Ela na verdade tem bons antecedentes – Barroso e Teori foram contrapontos vitais ao reacionarismo de 
tantos juízes do STF.
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