quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

O SUS E A DESIGUALDADE NO BRASIL


FHC, a FIESP e o PSDB acabaram com a CPMF

O SUS E A DESIGUALDADE NO BRASIL

Por Alexandre Padilha na Carta Maior

(Alexandre Padilha, santareno de coração, médico, ex-Ministro da Coordenação Política de Lula e 
da Saúde de Dilma)

O Brasil é o único país com mais de 100 milhões de habitantes que busca oferecer acesso universal à 
saúde: mas como resolver o subfinanciamento do SUS?
Às vésperas do Natal, depois de dias de internação, felizmente a modelo e apresentadora Andressa 
Urach recebeu alta hospitalar, com vida e pronta para se reabilitar. Durante todos esses dias, a imprensa 
e as redes foram ricas em comentar sobre a vida da modelo, sobre boatos em relação a sua saúde, sobre 
técnicas estéticas, sobre a ditadura da beleza e clínicas e mais clínicas. Raras matérias traziam uma 
informação que surpreende a todos: depois de um périplo por clínicas particulares sem solução 
definitiva, foi em um hospital 100% SUS, do Grupo Hospitalar Conceição (um dos poucos próprios do 
Ministério da Saúde) que a modelo teve a sua vida salva e a saúde reabilitada. Foram médicos e 
profissionais de saúde que enfrentam todas as carências que estão presentes nos hospitais públicos, que 
cuidaram da complicação decorrente do procedimento estético. Mais uma vez, neste ato, garantiram a 
modelo o direito de todos os 200 milhões de brasileiros: o acesso a um sistema de saúde que busca ser 
universal.

Nem no meu maior devaneio SUSista esperava uma manchete do tipo: “Hospital do SUS salva modelo 
com complicações em procedimentos estéticos realizados em clínica privada”. Ou ” Ao contrário de 
Miami, modelo não precisou pagar antecipadamente por vida salva em Hospital do SUS”. Mas é 
preciso falarmos alto para que esta, uma das contradições da relação entre dois sistemas de saúde, 
público e privado, não passe desapercebida. Pelo tamanho atual dos dois sistemas no Brasil, é 
fundamental que as contradições sejam cada vez mais enfrentadas, sob risco de inviabilizarmos o 
projeto de um sistema público universal com qualidade e reforçarmos a iniquidade também no sistema 
privado.

O Brasil é o único país do mundo, com mais de 100 milhões de habitantes, que busca oferecer a sua 
população o acesso universal a saúde. Nem mesmo as novas Constituições da América Latina, 
apelidadas de bolivarianas, foram tão ousadas:” Saúde é DIREITO de todos e DEVER do Estado”. 
Ao mesmo tempo, temos cerca de 50 milhões de usuários de planos de saúde médico-hospitalares 
(eram 30 milhões em 2003) e 70 milhões, incluindo planos odontológicos. Os números de ambos os 
sistemas impressionam ministros da Saúde e investidores de todo o mundo. O caso similar a modelo, 
pacientes do sistema privado recorrerem ao SUS, por falta de cobertura ou por situação de emergência 
é muito mais comum do que se imagina. Desde 2011, quando assumi o Ministério da Saúde, 
implantamos um conjunto de mudanças de gestão para identificar quando isso ocorre. Com elas, busca-
se garantir o ressarcimento do plano de saúde ao SUS, porque é dele que se deve cobrar, não do 
paciente. Desde então, as operadoras são obrigadas a emitir um número de cartão SUS para todo 
usuário de plano, permitindo ao Ministério este rastreamento. Você que me lê e é usuário de plano de 
saúde tem número de cartão SUS e talvez não saiba. De lá para cá, foram recordes sucessivos de 
recuperação de recursos para o SUS: em 3 anos, mais do que em toda história da Agência Nacional de 
Saúde (ANS), criada em 2000. Mas muito precisa-se avançar nessa cobrança, e o governo Dilma 
prosseguiu em novas medidas em relação a isso. O motivo mais comum de internação no SUS por 
detentores de planos de saúde, acreditem: parto. Recentemente, correu as redes a notícia de turista 
canadense, que teve parto de urgência no Havaí e, quando voltou para casa, recebeu conta de US$2,5 
milhões para pagar.

Poderia citar outros exemplos em que somos usuários do SUS sem nem reconhecermos. Desde 2001, o 
Brasil é recordista mundial de transplantes em hospitais públicos. O SAMU salva vidas sem perguntar 
o plano ou exigir cheque. A vigilância sanitária estabelece regras e fiscaliza a comida dos restaurantes, 
inclusive os chiques, de preços estratosféricos. As mesmas analisam risco a saúde de equipamentos, 
medicamentos, bebidas vendidas em massa, cosméticos e produtos de estética. O próprio uso do 
HIDROGEL já estava condenado pela Anvisa, evitando novos casos como o de Andressa Urach.

Estas contradições da convivência de dois sistemas públicos e privado impactam nos maiores desafios 
atuais de sobrevivência do projeto SUS: o seu subfinanciamento e a iniquidade no acesso aos serviços. 
E criam um ambiente, no mercado de trabalho e no complexo industrial da saúde, que influencia 
fortemente outro fator decisivo para uma saúde pública humanizada: a formação e a postura dos 
profissionais de saúde.

Há um consenso suprapartidário no Brasil: a saúde pública é subfinanciada. A divergência é como 
resolver este fato. Desde o final da CPMF, que retirou R$40 bilhões anuais do orçamento do 
Ministério da Saude, o Brasil investe na saúde pública em média 3 vezes per capta menos do que 
parceiros sul americanos como Chile, Argentina e Uruguai; cerca de 7 a 8 vezes do que sistemas 
nacionais europeus recentes como Portugal e Espanha, cerca de 11 vezes menos do que o tradicional 
Sistema Nacional Inglês. Ao mesmo tempo, segundo dados recentes publicados pelo IPEA, a isenção 
fiscal referente aos planos de saúde no Brasil chegou a cerca de R$ 18 bilhões. Ou seja, o mesmo 
Estado que não garante recursos suficientes para prover um sistema público para todos, co-financia a 
alternativa para uma parcela da população, que se vê obrigada a pagar valores expressivos para ter 
acesso a saúde. 
Além disso, o mesmo Estado suporta o atendimento de vários procedimentos que de alguma forma não 
são cobertos pelos planos. A incorporação tecnológica, o envelhecimento da população e o impacto 
dos acidentes automobilísticos e da violência urbana nos custos dos serviços de emergência e 
reabilitação, transformam esta equação, já precária, em insustentável. Não a toa, a melhoria da saúde é 
a primeira demanda da população e ter um plano de saúde, o sonho da nova classe trabalhadora. No 
último período, dois avanços importantes do governo Dilma foram conquistados: a regra que 
estabelece quanto União, estados e municípios são obrigados a investir em saúde e a vinculação de um 
percentual dos recursos do pré-sal. Mas precisamos avançar sempre.

As opções para o financiamento da saúde são uma das expressões da desigualdade não tão revelada no 
nosso país. É mais do que hora de todos nós, que colocamos a redução das desigualdades como centro 
de um projeto político, enfrentá-las. Se não o fizermos, perderemos a capacidade de interlocução com 
segmentos expressivos da classe trabalhadora, que sofre com a baixa qualidade e os custos dos 
sistemas públicos e privados. Temos que ir para ofensiva no diálogo com a sociedade e explicitar que 
ampliar o financiamento a saúde passa, necessariamente, por inverter o sistema tributário injusto com o 
qual convivemos. Não é razoável, em um país como o Brasil, que alguém, ao receber R$ 60 mil em 12 
meses de trabalho, paga 27% de Imposto de Renda, enquanto alguém que receber R$ 2 milhões de 
herança, praticamente não será taxado. Em países como EUA (30-40%) França (45%), Alemanha, 
Japão (50%) as alíquotas para heranças seriam outras. Estudos de 1999 mostram que imposto sobre 
fortunas no Brasil, entre 0,8% a 1,2%, em fortunas acima de R$ 1 milhão, renderiam uma arrecadação 
de cerca de 1,7% do PIB, mais do que era obtido pela CPMF.

A formação e a conduta profissional é o outro território invadido por estas relações dos dois sistemas 
público e privado. A batalha do Mais Médicos, as denúncias recentes de abuso sexual e preconceito 
por alunos de medicina nas faculdades e a atitude absurda de algumas lideranças condenarem a 
campanha antiracismo organizada pelo Ministério da Saúde só explicitaram o arcabouço de valores que 
influencia a formação dos nossos futuros profissionais, de ambos os sistemas. No cerne, há duas 
correias de tensão, que se alimentam mutuamente. Por um lado, um ideário liberal de exercício da 
profissão, que alimenta, desde os primeiros dias de graduação, uma não aposta em um sistema público 
de qualidade e o desrespeito em relação aos seus usuários: pobres, mulheres, negros, homossexuais e 
“gente não diferenciada”. Por outro, um mercado dinâmico e lucrativo de tecnologia, órteses, próteses, 
equipamentos, fármacos, serviços, publicações, congressos que financia uma visão cada vez 
ultraespecializante da formação e da atuação em saúde. Não a toa, a investigação iniciada pelo 
Ministério da Saúde, em Março de 2013 que teve luz recente graças a matéria de TV, e o Mais 
Médicos incendiaram o debate, questionaram paradigmas e condutas. Não há nenhum profissional de 
saúde no Brasil, nem aquele que se especializou em realizar procedimentos estéticos em clínicas 
privadas, que não tenha dependido do SUS para se formar. Nos meus tempos de estudante de medicina 
cunhamos a frase: “chega de aprender nos pobres para só querer cuidar dos ricos”

Esta realidade desafiadora nos abre uma grande oportunidade. O entendimento de que um sistema 
público dessa dimensão, em um país tão desigual e diverso como o nosso, gera plataforma continental 
para um amplo complexo de indústria e serviços no campo da saúde. O Brasil será mais rico e menos 
desigual se pudermos articular as duas perspectivas. Não será possível sustentar um sistema público de 
saúde sem crescimento econômico e para tal é necessário colocarmos os 2 pés no universo da inovação 
tecnológica. Ao mesmo tempo, o complexo de indústrias e de serviços da saúde não sobrevive no 
Brasil se desprezar o mercado interno impulsionado pelo acesso a um sistema público, cada vez mais 
tecnológico. 
Usar o poder de compra do estado para fortalecer um setor econômico que gere empregos e inovação 
tecnológica no Brasil teve, na Saúde, a sua experiência recente mais exitosa. Ela foi calcada de um 
lado na ousadia, ao estabelecer o interesse público e nacional como o rumo a ser seguido, e 
previsibilidade, regras que estimulassem o setor privado a fazer este jogo de interesse para o Brasil. 
Beber dessa experiência é fundamental para fortalecermos a Saúde como um impulso, e não um peso a 
carregar, na agenda de desenvolvimento do Brasil.
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