sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Na Câmara, eles sempre ganham; perderemos nós


Eduardo Cúnha e Severino Cavalcanti

No Balaio do Kotscho,

O que diria o velho doutor Ulysses, ao observar, lá do alto, esta renhida disputa pelo comando da 
Câmara?
"Vocês ainda vão sentir saudades do Severino Cavalcanti...", poderia comentar naquele seu jeitão 
cético de quem sabia das coisas, diante da ameaça real da vitória do deputado carioca Eduardo Cunha, 
na eleição deste domingo, para ocupar o terceiro cargo da República.
Se lesse esse texto, Ulysses me faria uma ressalva: "Velho, sim, mas não velhaco". Pois agora, 
parafraseando Nelson Rodrigues, o capitão da resistência democrática poderia constatar que os 
velhacos perderam a modéstia e já dominam o picadeiro, viraram protagonistas.
Só para lembrar, Severino era um legítimo representante do chamado baixo clero, como Cunha 
também é, no papel de líder do sindicato dos deputados sem rosto, sempre em busca de mais 
vantagens. Só que, perto de Cunha, o folclórico deputado pernambucano, que surpreendeu o país ao 
ser eleito para a presidência da Câmara, em 2005, era um amador, podemos dizer, até um romântico.
No jogo de chantagens do Legislativo com o Executivo, Severino queria apenas uma diretoria da 
Petrobras, "aquela que fura poços", e acabou se vendendo por um módico mensalinho de R$ 10 mil 
mensais ao concessionário do restaurante da Câmara. Eram outros tempos.
Eduardo Cunha é, acima de tudo, um profissional. Age, não como sindicalista, mas como empresário, 
como bem constatou o colega Luiz Fernando Vianna, desde que surgiu nas franjas do submundo da 
política fluminense, levado pelas mãos de PC Farias, no começo dos anos 1990, para ocupar um cargo 
na falecida Telerj.
Desde então, aliado ora a Collor, ora a Garotinho, ora a Cesar Maia, acumula em seu currículo um 
longo prontuário de processos na Justiça, que não o impediram de seguir na sua vitoriosa carreira, 
chegando aonde chegou, como franco favorito. Pode ganhar até no primeiro turno, derrotando o 
governo federal, que acabou de tomar posse, e do qual é desafeto assumido.
Suprapartidário, é líder do PMDB, o principal aliado do governo, mas ninguém na Câmara é mais 
oposicionista do que ele. Gabou-se nas últimas eleições de ter ajudado a eleger sua própria bancada e 
logo lançou-se em campanha pela presidência, com a retaguarda garantida por grandes grupos de 
variados interesses econômicos e midiáticos, que sempre o apoiaram.
Do outro lado, concorre para valer só o candidato oficial do governo, Arlindo Chinaglia, do PT 
paulista, que já foi um anódino presidente da Câmara. Chinaglia joga suas últimas fichas no trabalho de 
ministros do Palácio do Planalto, correndo atrás do prejuízo, com suas planilhas para cobrar fidelidade 
de parlamentares dos partidos aliados que ocupam cargos no governo.
Durante toda esta "campanha eleitoral" milionária na caça ao voto dos deputados, com jatinhos e 
comilanças à vontade, nenhum dos dois discutiu os graves problemas nacionais, muito menos projetos 
para o país. A disputa entre os dois se limita a saber quem oferece mais cargos e mordomias às 
insaciáveis excelências.
Como o voto é secreto, ninguém saberá quem trairá quem, mas de uma coisa podemos ter certeza: 
ganhe quem ganhar, diante deste cenário de vale tudo, perderemos nós.
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