O helicóptero é apreendido na aterrissagem no Espírito Santo. “Ninguém, na grande mídia, fez
nada decente sobre o helicóptero dos Perrelas”.
Por Paulo Nogueira
Certas coisas despertam a nossa atenção para absurdos dos quais nem sempre nos demos conta na hora
em que ocorreram.
Por exemplo: os 13,4 quilos que levaram ao fuzilamento do brasileiro Marco Archer, na Indonésia, são
uma insignificância em relação à meia tonelada de pasta de cocaína descoberta no helicóptero dos
Perrelas.
Você, pela tragédia de Archer, tem uma ideia da omissão da mídia e da polícia brasileira no caso do
helicóptero.
O interesse público, mais uma vez, foi para o fim da fila.
Se meia tonelada de cocaína não é notícia, não é manchete, não é motivo para investigações frenéticas
da mídia e para pressões de repórteres sobre a polícia, então o que é?
Você pode dizer, com cinismo e descaro, e estará certo: depende de quem seja o portador. Meio quilo
no carro de um amigo de Lula receberia uma cobertura estrepitosa.
Ninguém, na grande mídia, fez nada decente sobre o helicóptero dos Perrelas.
Na internet, graças à generosidade e ao ativismo dos leitores que financiaram nosso trabalho,
mergulhamos no caso.
Não é fácil fazer jornalismo independente no Brasil. Nosso documentário sobre o ‘Helicoca’, por obra
de alguma força oculta, foi abruptamente retirado do YouTube, para onde só voltou há pouco graças a
nossa teimosia e perseverança.
O repórter Joaquim Carvalho teve acesso a um documento da Polícia Federal no qual estava a
informação de que o helicóptero pousara num hotel antes de seguir viagem e ser interceptado pela
polícia.
A informação foi confirmada pelo piloto, numa entrevista gravada por Joaquim.
Mesmo assim, diante de tais fatos, o hotel entrou na Justiça e fomos obrigados a retirar do ar os textos
em que seu nome aparecia.
Como meia tonelada virou nada para a mídia?
A hipótese mais provável é a seguinte. Os Perrelas são ligados a Aécio, e Aécio é amigo dos donos das
empresas jornalísticas.
Mexer no assunto, segundo essa lógica, poderia atrapalhar a campanha do amigo Aécio.
Sem o helicóptero a fama de playboy de Aécio já era um problema suficientemente grande em sua
tentativa de subir a rampa do Planalto.
Apenas a título de especulação. Imagine que Archer, na Indonésia, tivesse dito que a cocaína
transportada em sua asa delta não era dele. Alguém pôs isso lá, acreditem.
No Brasil, a mídia aceitou, sem questionamentos, a versão de que a cocaína nada tinha a ver com os
donos do helicóptero.
Teria sido apenas uma coincidência que, entre tantos helicópteros que voam no Brasil, alguém tivesse
escolhido exatamente o dos Perrelas para depositar a cocaína.
Pode ser verdade, aliás. Mas a sociedade teria que ser cientificada disso com informações convincentes
e confiáveis.
Não foi o que ocorreu até aqui.
E, se não o episódio não foi esclarecido até agora, esqueça: o helicóptero entrará no museu dos
enigmas que ninguém quer resolver.
Moral da história.
A mídia que deu tamanho espaço a um caso que envolvia 13,4 quilos de cocaína simplesmente
desprezou outro com uma carga mais de 30 vezes maior.
Pobres leitores, pobres telespectadores, pobres ouvintes.
Por Paulo Nogueira
Certas coisas despertam a nossa atenção para absurdos dos quais nem sempre nos demos conta na hora
em que ocorreram.
Por exemplo: os 13,4 quilos que levaram ao fuzilamento do brasileiro Marco Archer, na Indonésia, são
uma insignificância em relação à meia tonelada de pasta de cocaína descoberta no helicóptero dos
Perrelas.
Você, pela tragédia de Archer, tem uma ideia da omissão da mídia e da polícia brasileira no caso do
helicóptero.
O interesse público, mais uma vez, foi para o fim da fila.
Se meia tonelada de cocaína não é notícia, não é manchete, não é motivo para investigações frenéticas
da mídia e para pressões de repórteres sobre a polícia, então o que é?
Você pode dizer, com cinismo e descaro, e estará certo: depende de quem seja o portador. Meio quilo
no carro de um amigo de Lula receberia uma cobertura estrepitosa.
Ninguém, na grande mídia, fez nada decente sobre o helicóptero dos Perrelas.
Na internet, graças à generosidade e ao ativismo dos leitores que financiaram nosso trabalho,
mergulhamos no caso.
Não é fácil fazer jornalismo independente no Brasil. Nosso documentário sobre o ‘Helicoca’, por obra
de alguma força oculta, foi abruptamente retirado do YouTube, para onde só voltou há pouco graças a
nossa teimosia e perseverança.
O repórter Joaquim Carvalho teve acesso a um documento da Polícia Federal no qual estava a
informação de que o helicóptero pousara num hotel antes de seguir viagem e ser interceptado pela
polícia.
A informação foi confirmada pelo piloto, numa entrevista gravada por Joaquim.
Mesmo assim, diante de tais fatos, o hotel entrou na Justiça e fomos obrigados a retirar do ar os textos
em que seu nome aparecia.
Como meia tonelada virou nada para a mídia?
A hipótese mais provável é a seguinte. Os Perrelas são ligados a Aécio, e Aécio é amigo dos donos das
empresas jornalísticas.
Mexer no assunto, segundo essa lógica, poderia atrapalhar a campanha do amigo Aécio.
Sem o helicóptero a fama de playboy de Aécio já era um problema suficientemente grande em sua
tentativa de subir a rampa do Planalto.
Apenas a título de especulação. Imagine que Archer, na Indonésia, tivesse dito que a cocaína
transportada em sua asa delta não era dele. Alguém pôs isso lá, acreditem.
No Brasil, a mídia aceitou, sem questionamentos, a versão de que a cocaína nada tinha a ver com os
donos do helicóptero.
Teria sido apenas uma coincidência que, entre tantos helicópteros que voam no Brasil, alguém tivesse
escolhido exatamente o dos Perrelas para depositar a cocaína.
Pode ser verdade, aliás. Mas a sociedade teria que ser cientificada disso com informações convincentes
e confiáveis.
Não foi o que ocorreu até aqui.
E, se não o episódio não foi esclarecido até agora, esqueça: o helicóptero entrará no museu dos
enigmas que ninguém quer resolver.
Moral da história.
A mídia que deu tamanho espaço a um caso que envolvia 13,4 quilos de cocaína simplesmente
desprezou outro com uma carga mais de 30 vezes maior.
Pobres leitores, pobres telespectadores, pobres ouvintes.
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