"Às vésperas de completar 461 anos, a altaneira cidade de São Paulo dos bandeirantes, a 'suíça
brasileira', a 'locomotiva do Brasil', onde tudo é maior e melhor, caiu na real. Vai ficando tudo
nivelado por baixo, como o nível das águas lamacentas do Cantareira".
Por Ricardo Kotscho
A água acabou às quatro da tarde, como tem acontecido com frequência. Às seis, acabou a luz. Ruas
Por Ricardo Kotscho
A água acabou às quatro da tarde, como tem acontecido com frequência. Às seis, acabou a luz. Ruas
alagadas, carros boiando, prédios sem elevador, restaurantes fechando, semáforos piscando, árvores e
postes caídos no asfalto, um caos.
Em muitas regiões mais pobres da cidade estas cenas são habituais quando chegam as chuvas de verão
Em muitas regiões mais pobres da cidade estas cenas são habituais quando chegam as chuvas de verão
e, na maioria das vezes, a gente nem fica sabendo, não dá manchete. Só que, desta vez, aconteceu no
coração dos Jardins, a área mais nobre da maior cidade do país.
Antes que me chamem de preconceituoso, já vou logo confessando: faz mais de dez anos moro aqui,
Antes que me chamem de preconceituoso, já vou logo confessando: faz mais de dez anos moro aqui,
no Jardim Paulista, que viveu nesta quinta-feira seu dia de periferia. Enfim, poderão dizer os mais
otimistas, vivemos na sociedade igualitária com que muitos sonhamos. Aos poucos, por toda parte, São
Paulo vai virando um imenso subúrbio abandonado, acabando com os privilégios das minorias.
O que também tem seu lado bom. Sem energia, que até a meia noite não havia voltado, toda a
parafernália eletrônica saiu do ar, tornou-se inútil. Até as luzes de emergência da escadaria pifaram e
nem o filtro d´água funcionava, o que me obrigou a experimentar pela primeira vez a água de torneira
oferecida pelo segundo volume morto do Cantareira. Por falta de opções, esticamos o jantar à luz de
velas na cozinha e conversamos bastante sobre a vida, como há muito tempo não acontecia.
Às vésperas de completar 461 anos, a altaneira cidade de São Paulo dos bandeirantes, a "suíça
brasileira", a "locomotiva do Brasil", onde tudo é maior e melhor, caiu na real. Vai ficando tudo
nivelado por baixo, como o nível das águas lamacentas do Cantareira.
O governador tucano não cuidou dos reservatórios e preferiu investir a grana da Sabesp na Bolsa de
Nova York. O prefeito petista, mais preocupado com as bicicletas, não cuidou dos bueiros entupidos,
das ruas esburacadas, da manutenção das velhas árvores, das calçadas quebradas.
Certa vez, quando estava começando a carreira no Estadão dos anos 60 do século passado, pediram-
me para escrever um artigo sobre o aniversário da cidade. O título era mais ou menos na linha "amo
esta cidade com todo ódio", mostrando o que ela tem de bom e de ruim. De lá para cá, não sei dizer se
aumentaram os motivos para sentir mais amor ou mais ódio. O fato é que continuo vivendo aqui, ou
melhor, sobrevivendo, na cidade onde nasci.
E vamos que vamos.
E vamos que vamos.
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A explicação para isso está em uma pesquisa Datafolha publicada no dia 20 de outubro, que mostra
que a população da maior cidade do país não sabe de quem é a culpa pelo sofrimento que vem
passando com o racionamento velado de água – que irá piorar, porque, além desse desconforto,
ainda terá que pagar mais pelo péssimo serviço da Sabesp.A pesquisa Datafolha em questão foi
divulgada pelo jornal naquele mês, mas escondeu um dado assustador: 53% dos paulistanos
atribuem os problemas na distribuição de água a Dilma Rousseff e ao prefeito Fernando Haddad,
ambos do PT, apesar de a responsabilidade pelo problema ser exclusivamente do governo do
Estado controlador da Sabesp.
Na última quarta-feira (7/1), a Sabesp foi autorizada pela Agência Reguladora de Saneamento e
Energia do Estado de São Paulo (Arsesp) a aplicar multa de 40% a 100% para quem consumir
mais água neste ano no comparativo entre fevereiro de 2013 e janeiro de 2014. A medida deve
ser publicada no Diário Oficial do Estado nesta quinta-feira (8).
Confira, abaixo, o gráfico explicativo sobre o sistema elaborado pelo governo paulista para
punir quem consumir mais água do que o permitido.

Como se vê, não será preciso que os moradores da capital paulista gastem muita água para ser
multados. Na verdade, terão que gastar menos água do que costumam gastar no verão, porque a base
de cálculo que será utilizada pelo governo Alckmin para punir quem ultrapassar o racionamento – que,
até agora, a mídia local não chamou pelo nome – se baseia na média de 12 meses de um ano antes de o
problema se agravar (2013).
Como a média de 12 meses pega outono, inverno e primavera, meses em que a população consome
menos água, e é aplicada no verão, a base para multar os paulistanos, que apoiaram com tanto
entusiasmo o governo Alckmin nas últimas eleições, é uma trapaça: quem não reduzir o consumo que
costuma ter no verão, irá pagar até o dobro pela conta de água.
Os acionistas da Sabesp agradecem. Com o perdão pela piada infame, os detentores de ações da
Sabesp (percentual infinitesimal da população da cidade) irão “lavar a égua”.
punir quem consumir mais água do que o permitido.
Como se vê, não será preciso que os moradores da capital paulista gastem muita água para ser
multados. Na verdade, terão que gastar menos água do que costumam gastar no verão, porque a base
de cálculo que será utilizada pelo governo Alckmin para punir quem ultrapassar o racionamento – que,
até agora, a mídia local não chamou pelo nome – se baseia na média de 12 meses de um ano antes de o
problema se agravar (2013).
Como a média de 12 meses pega outono, inverno e primavera, meses em que a população consome
menos água, e é aplicada no verão, a base para multar os paulistanos, que apoiaram com tanto
entusiasmo o governo Alckmin nas últimas eleições, é uma trapaça: quem não reduzir o consumo que
costuma ter no verão, irá pagar até o dobro pela conta de água.
Os acionistas da Sabesp agradecem. Com o perdão pela piada infame, os detentores de ações da
Sabesp (percentual infinitesimal da população da cidade) irão “lavar a égua”.
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