sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O PAÍS VIRTUAL DO PIG


Brasil é o único país em que crimes contra a humanidade prescrevem e uma Lei da Anistia 
imposta pela ditadura continua em vigor.

O PAÍS VIRTUAL

Por Mino Carta, na Carta Capital


Sempre mais comum quem se afasta da realidade para agir como cidadão de um Brasil inexistente.
As manchetes que ornam esta página encabeçaram recentemente o noticiário de dois jornalões nativos.
Acima (por incrível que pareça) o Estadão de sexta 5 de dezembro, abaixo O Globo de sábado 6. As
duas manchetes poderiam ter saído uma semana antes. Bastaria ter dado repercussão à reportagem de
CartaCapital, nas bancas em São Paulo na sexta 28 de novembro e no dia seguinte no Rio e em todo o
País. É o que teria acontecido se a nossa mídia fosse digna de um país contemporâneo do mundo,
democrático e civilizado.


O Estado de S. Paulo e O Globo, cada qual a seu modo, fazem questão de ignorar Carta Capital. 
Não estão sozinhos nesta prática, e não me refiro apenas a uma reação midiática. Uma porção 
conspícua da sociedade nativa repudia o jornalismo honesto, ou, por outra, aquele que não diz, ou não 
escreve, quanto não aprecia ouvir ou ler. Nada disso parece digno de um país democrático e civilizado.
E não se daria, digamos, na Europa e nos Estados Unidos, quem sabe não se desse na Argentina, na 
Bolívia, na Venezuela.
Sem levar em conta a ofensa à própria razão e às regras do bem-viver, o fenômeno confirma o 
desrespeito a uma equipe de colegas profissionais e a um repórter, titular da primazia, no caso o 
excelente Fabio Serapião. Segundo a nossa mídia, só vale o que noticia. É como se CartaCapital e seu 
site, frequentado por milhões de navegantes, não existissem. Fica assim demonstrado o apego 
selvagem à virtualidade, exato oposto da realidade.
Há sinais inúmeros de tentativa, praticada em todos os quadrantes possíveis, de construir um país 
virtual, nas mais diversas manifestações, ancorado à visão e às crenças do indivíduo e dos grupos. Há 
fatias da sociedade graúda, por exemplo, dispostas a acreditar que, ao sabor do escândalo da Petrobras, 
o impeachment de Dilma Rousseff é inescapável, quando, a bem da verdade factual, a presidenta só 
poderia ser derrubada pelo golpe, habilitado a jogar a Constituição no lixo.
A oposição tucana porta-se como se tivesse ganho a eleição, enquanto o PT apresenta-se como o 
partido que deixou de ser faz muito tempo, no mínimo desde que chegou ao poder. Nem se fale dos 
demais. E ali, no centro da reação, dispara Fernando Henrique Cardoso, o cientista político que 
ninguém leu, a acusar a presidenta de prometer para não cumprir, quando foi ele o autor do maior 
engodo eleitoral da história do País ao conduzir a campanha eleitoral de 1998 à sombra da estabilidade, 
para desvalorizar o real 12 dias depois de empossado para o segundo mandato. E quebrar o Brasil.
O procurador-geral pede a demissão da diretoria da Petrobras, sem motivo e autoridade para tanto. Já o 
ministro da Justiça, do alto de sua pompa provinciana, não perde a ocasião para proferir impávidas 
falastronices, convicto de impressionar o auditório. E o ministro Gilmar Mendes? Em lugar de fazer 
justiça, dedica-se ao exercício da política, secundado pelo jovem colega Antonio Dias Toffoli, pupilo 
súbito. Tivesse sido Toffoli nomeado hoje por Dilma, o mesmo Gilmar o definiria como bolivariano.
Mas o Brasil é o único país em que crimes contra a humanidade prescrevem e uma Lei da Anistia 
imposta pela ditadura continua em vigor.
Vejam só, não faltava quem alimentasse a certeza de viver na sucursal de Miami, agora prefere Dubai.
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