sábado, 13 de dezembro de 2014

NÃO SE ILUDAM: “O GOLPISMO CONTINUA VIVO E RESPIRA”



por  Breno Altman

A esquerda e o petismo estão um tanto perplexos com a nova estratégia da direita. Afinal, ao contrário 
do que se passou em pleitos anteriores, o bloco conservador trocou o recuo para acumulação de forças, 
que naturalmente se segue a derrotas eleitorais, por escalada agressiva e militante contra o governo.
Amparados pela artilharia fornecida pelo baronato da mídia, os liberais-democratas do PSDB 
deslizaram para o território do reacionarismo e passaram a comandar ofensiva contínua, em todas as 
trincheiras do Estado e da sociedade, com os objetivos de deslegitimar, sabotar e desestabilizar o 
oficialismo.
O caldo de cultura é semelhante a outros momentos de nossa história, como as crises de 1954 e 1964, 
mas a situação concreta difere profundamente. Tanto as circunstâncias internacionais quanto as internas 
não colocam, no horizonte visível, o risco de saída anticonstitucional propiciada por intervenção militar.
O ambiente, contudo, é parecido.
Estas similitudes, por sua vez, estimulam o surgimento de teorias conspiratórias, devidamente banhadas 
por atitude alarmista, natural entre aqueles que desejam barrar a maré montante do conservadorismo.
Antigamente setores de esquerda tinham a esperança de encontrar a revolução logo na esquina. A 
mesma ansiedade parece levar, nos tempos presentes, a que se veja trama golpista em cada canto.
O problema desta embocadura não é de pouca relevância. Quando se permuta a crítica e a informação 
do processo político pela denúncia à exaustão de episódios isolados, sem provas contundentes e 
insofismáveis, fica-se dependente de um fato mágico.
Caso o cenário confabulado não se materialize, zero e vezeiro nas teorias da conspiração, costuma 
sobrevir uma enganosa sensação de alívio, como se o processo estivesse interrompido porque a 
previsão catastrófica foi frustrada.
Tampouco este procedimento tem utilidade razoável no período precedente ao golpe previsto. 
Normalmente paralisa e atemoriza parte das forças ameaçadas, pois o discurso dramático, para ser 
convincente, apresenta a manobra como bem engendrada e inevitável.
Além disso, por conta do perigo supostamente real e imediato que estaria em curso, agitam-se os que 
querem interditar qualquer debate sério sobre problemas e erros na política que eventualmente 
prevalece no campo progressista.
Qualquer dissidência, nestas horas, costuma ser considerada ato de traição.
A experiência mais recente com este tipo de alarmismo ocorreu nesta semana, durante o julgamento 
das contas de campanha da presidente Dilma Rousseff.
Estabeleceu-se, em certas frações da esquerda, particularmente na blogosfera, a certeza que a bala de 
prata do conservadorismo seria a rejeição da contabilidade petista.
O ministro Gilmar Mendes lideraria operação para impugnar o relatório de Dilma, dividindo ou 
conquistando o pleno do TSE, de quebra aludindo vínculos com a Operação Lava Jato, e fixando 
caminho jurídico para a interrupção do mandato presidencial.
Nada disto aconteceu.
O togado preferido dos tucanos estrebuchou, mas aprovou as contas dilmistas, acompanhado pela 
unanimidade dos integrantes da corte eleitoral.
Muitos daqueles que acreditaram nesta conspiração, como é de praxe, agora celebram com entusiasmo 
a derrota do golpe que não houve.
Reiteram que teria acabado o terceiro turno, permitindo ao país dias mais amenos, de volta à 
normalidade.
Depois da ilusão catastrófica, a cândida fantasia.
O golpismo, porém, continua vivo e respira.
Trata-se de estratégia que busca bloquear o governo petista, encurralando-o e solapando sua 
capacidade de ação, para desidratá-lo e desossá-lo antes da primavera de 2018.
Podemos nos referir a essa política como golpista porque pretende, no limite, articular instrumentos 
institucionais que se contraponham à soberania das urnas e interrompam a segunda administração de 
Dilma Rousseff.
Talvez tomados de surpresa, o PT e o governo tentam esboçar orientação para sair da defensiva e 
retomar as reformas, em clima de alta densidade político-ideológica e radicalização do conflito 
distributivo.
O alarmismo não ajuda neste esforço.
Retesa músculos e nervos das forças progressistas ao redor de supostos acontecimentos épicos.
Reduz a concentração no que realmente importa: a reconstituição dos trabalhadores e seus aliados 
como protagonistas da vida política, com um novo programa de mudanças e suas próprias formas de 
ação, dentro e fora das instituições.
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