sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Estados Unidos e Cuba: o recomeço



Daniel Afonso da Silva

On a new beginning foi o primeiro grande discurso do presidente Barack Obama. Proferido no Cairo,
a 4 de junho de 2009, representou a disposição do recém-empossado líder norte-americano em 
recomeçar contatos quebrados. Primeiro com o mundo muçulmano, demonizado pelos Estados Unidos 
após os ataques do 11 de setembro de 2001. Depois com todos aqueles ainda hostis aos Estados 
Unidos.
Sete semanas antes de sua eleição, o mundo presenciara a quebra do Lehman Brothers e a 
consolidação do pânico decorrente da instalação mundial da crise financeira.
No primeiro instante era consensual imputar aos Estados Unidos e ao presidente George Bush as 
motivações e as razões de toda a crise. A guerra ao terror tinha, havia muito, se revelado um fracasso 
na forma e no conteúdo. A investida no Iraque era entendida pela opinião como o núcleo de todas as 
frustrações e crises.
Ao menos desde a execução, claramente arbitrária, de Saddam Hussein, muitos norte-americanos e não-
norte-americanos insuflavam crise de confiança nos gestos e ações dos Estados Unidos e do presidente 
Bush.
Ainda na disputa eleitoral, o senador Barack Obama, após superar Hilary Clinton nas primárias dos 
democratas, começou a ser tido como a esperança frente as crises. Após vencer o pleito, causou furor e 
expectativas.
Era a esperança vencendo o medo – como ocorrera no Brasil com a eleição do presidente Lula anos 
antes.
Ao assumir a presidência, as demandas foram se mostrando imensas.
Desmoralizados em toda parte, os Estados Unidos assistiram, na transição de presidentes, entre 2008 e 
2009, importante distribuição de poder e de influência no manejo da crise das finanças. O G20 de 
chefes de estado foi o passo denso e inicial do processo. Com ele foi afirmada a politização dos BRICs 
e dos países emergentes.
No G20 de Washington, em fins de 2008, o presidente anfitrião – e de saída – quase que simplesmente 
apenas ouviu. A postura do presidente Obama, a partir do G20 de Londres, em abril de 2009, seguiu 
mais ou menos a mesma. Mas mais por discrição que por imposição.
Ainda em 2009, a queda livre de Wall Street e das instituições too big to fail foi estancada. O empenho 
e a sangria foram, e continuam sendo, imensos. O Fed, como estratégia de sobrevivência, imprimiu 
quantidade inimaginável de moeda, dólar, para impedir o pior. Deu certo. No plano bancário e 
financeiro, quase tudo foi solucionado. Restou apenas o tratamento das consequências da crise. A 
saber: profusão de crises.
Concomitante à gestão dessas crises – crise econômica, social, política, jurídica, institucional –, o 
presidente norte-americano tinha diante de si a necessidade de superação do complexo de impotência 
que o 9/11 deixou. Os ataques daquele setembro de 2001 fizeram lembrar Pearl Harbor. A reação, os 
traumas adquiridos no Vietnã.
O presidente Obama foi por partes.
Prometeu – e cumpriu – diminuir seu contingente de homens no Iraque e no Afeganistão. Para isso, 
continuou a guerra por outros meios.
Multiplicou o investimento em tecnologia militar. Ampliou o uso de drones. Continuou fechando o 
cerco a Al Qaeda.
A promessa de fazer justiça seguia em pé. Mas de maneira discreta. Essa discrição permitiu a 
localização e execução de Bin Laden. Em 2011, então, certa “justice has been done”.
Num sentido longo, os ataques de Osama Bin Laden em 2001 foram espécie de revanche daqueles que 
promoveram os choques do petróleo nos anos de 1970 e depois do desaparecimento da União 
Soviética foram designados sem história. O discurso do presidente Obama no Cairo em 2009 foi onde 
se tentou reconsiderar toda a gente retirada da história. Para muito além do “choque de civilizações”, 
propôs-se o reconhecimento e a reconciliação do “Ocidente” ao “não-Ocidente” – em especial, ao 
mundo muçulmano.
Ano e meio depois, a demanda por história tomou conta das ruas no mundo muçulmano e em outros 
mundos. A partir da Costa do Marfim teve início a dita primavera árabe. Enquanto as agitações dessa 
estação tomavam conta de várias partes da África e do Oriente Médio, pelo Ocidente, na Europa e nas 
Américas, as ruas eram ocupadas em protesto contra as finanças, contra os governos, contra os 
políticos, por mais democracia.
No mesmo sentido longo, o 15 de setembro de 2008, quando da queda do Lehman Brothers, foi 
espécie de afirmação da integralidade do mundo pela globalização. Nenhum país passou imune aos 
efeitos da crise financeira. E, a partir dela, ficou evidente que nenhum país passaria incólume por seus 
desdobramentos.
Sendo assim, o 9/11 de 2001 e o 15/11 de 2008 apresentaram, para o bem e seu contrário, a essência 
do mundo hodierno. Diverso, diluído, diferente. Onde o recomeço virou imperativo.
O presidente Barack Obama foi dos primeiros a perceber essa mudança e reconhecer esse imperativo. 
Demorou, mas para Cuba também chegou a proposta para, com os Estados Unidos, recomeçar.
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