sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Coronelismo eletrônico: os veículos de comunicação da família Aécioporto Neves


Do jornalista e doutorando em Comunicação da UFRJ, Luiz Felipe Ferreira Stevanim, em 
artigo sobre “coronelismo eletrônico” publicado no Jornal GGN:

Desde os tempos de Sarney e de seu ministro das Comunicações, Antonio Carlos Magalhães, o 
coronelismo eletrônico não se mostrava tão próximo da presidência da República.
Neto de um tradicional político, o candidato Aécio Neves possui ligações com três rádios, uma 
emissora de TV e um jornal. O fenômeno – que chamamos de “coronelismo eletrônico” – inclui o uso 
político dos meios de comunicações e uma rede de favores e apadrinhamento que busca perpetuar o 
poder de determinado grupo nas comunicações e na política. Aécio, que é senador, descumpre o que 
está disposto no artigo 54 da Constituição Federal, que proíbe que os parlamentares sejam 
proprietários, diretores ou controladores de empresas concessionárias de serviço público.
O candidato é sócio da Rádio Arco-Íris (FM 99,1 MHz), sediada em Betim, na zona metropolitana de 
Belo Horizonte, e retransmissora da Jovem Pan para a Grande BH. Uma breve consulta no Sistema de 
Informação dos Serviços de Comunicação de Massa (SISCOM) da Anatel comprova este fato. 
Segundo matéria da Folha, o governo de Minas se recusou diversas vezes a divulgar os repasses 
estaduais às emissoras ligadas ao candidato.
Mas isso é só o que aparece aos olhos. O coronelismo eletrônico é mais sutil, menos evidente, mais 
sorrateiro. Para entendê-lo, é preciso ir mais fundo, em busca do rabo da palavra, como diria o bom 
mineiro Guimarães Rosa.
Uma vertente importante deste fenômeno é a relação das rádios e TVs com familiares de políticos. O 
principal acionista da Rádio São João Del Rei (970 AM) é Tancredo Augusto Tolentino Neves, que 
tem o mesmo nome do presidente eleito em 1985, seu pai. Advogado, Tancredo Augusto é tio de 
Aécio Neves e assumiu em 2010 a presidência da Prominas, empresa pública estadual encarregada de 
promover eventos na área de turismo e administrar grandes centros de convenções, como o 
Minascentro e o Expominas.
A irmã de Aécio, Andrea Neves da Cunha, jornalista responsável pelas principais decisões referentes à 
comunicação na campanha do candidato à presidência, é a principal sócia e diretora da rádio Vertentes 
(FM 95,3), na mesma São João Del Rei. A rádio é conhecida pela programação musical, voltada 
principalmente para o público jovem.
Cidade histórica encravada no coração de Minas, com cerca de 88 mil habitantes, São João Del Rei 
possui uma TV educativa, a TV Campos das Vertentes. Minas é o estado com mais televisões 
educativas, uma parcela considerável delas controlada por políticos, como Suzy dos Santos e eu 
apontamos em nosso artigo “Porteira, radiodifusão, universidade etc.” publicado na Revista Brasileira 
de Políticas de Comunicação da UnB.
A TV compõe o conjunto de veículos sob influência direta da família de Aécio Neves. A concessão 
para o canal é de 2002, quando o ministro das Comunicações era Pimenta da Veiga, candidato 
derrotado ao governo do estado de Minas. O presidente da Fundação Cultural Campos das Vertentes é 
José Geraldo D´Ângelo, aliado de Aécio que assumiu a presidência do Instituto Cultural Banco de 
Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG Cultural), em 2003, quando o neto de Tancredo era 
governador. A fundação também possui uma outorga de rádio FM (a rádio Campos de Minas, 95,3 
MHz).
A influência do coronelismo eletrônico alcança também as velhas letras. O jornal “Gazeta de São João 
Del Rei” tem como diretor de honra (in memoriam) o cunhado de Aécio, Herval Cruz Braz, marido 
falecido de Andrea. Com tiragem de 10 mil exemplares, a notícia que estampava a capa da edição de 
11 de outubro de 2014 era: “Aécio dispara no segundo turno”.
As vertentes do coronelismo eletrônico, que deságuam nas condutas políticas de nomes como Sarney, 
ACM, Collor e Aécio Neves, é um prejuízo à liberdade de expressão e ao direito dos cidadãos à 
comunicação. Esse direito pouco compreendido, mas essencial à democracia, inclui o acesso à 
informação livre e de qualidade e a possibilidade real de expressão e participação política.
Dos sinos da velha São João Del Rei ou das montanhas de Belo Horizonte, uma pergunta ecoa até nós: 
O que esperar das políticas de comunicação do candidato pleiteante ao principal cargo da República? 
O silêncio não pode ser a resposta.
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