quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A morte de Márcio Thomas Bastos, um Ministro inesquecível



Luis Nassif

Conheci Márcio Thomas Bastos no início de minha carreira de jornalista econômico. Louco para fugir 
da cobertura usual da editoria de Economia da Veja – muito empenhada em vender o “Brasil Grande” –
passei a propor temas variados que quebrassem a aridez da cobertura.
Sugeri uma matéria sobre os agiotas. Toparam.
Fui até a Polícia Civil e me indicaram dois advogados promissores, que tinham agiotas como clientes. 
Um foi-me apresentado como o mais “sagaz”, por manter contatos com delegados, praticar espertezas. 
O outro, como mais culto, mas menos “malaco”.
O primeiro deve ter terminado em alguma porta de cadeia. O segundo era o Márcio. Nossa amizade 
começou ali.
A propósito, o “causo” do agiota era saborosíssimo. Um senhor que emprestava dinheiro e, quando o 
cliente não conseguia pagar, chamava-o no escritório, matava-o e enterrava-o na parede. O “Criminal 
Minds” era pinto perto do espanhol agiota.
Voltamos a nos encontrar em vários episódios jornalísticos relevantes.
Um deles, foi na morte do empresário Ney Bittencourt Araújo, no qual seu filho foi acusado. Havia 
dúvidas sobre se Ney havia se suicidado ou não. O delegado dava entrevistas sustentando que Ney 
estava de bem com a vida. Pouco antes, cruzei com Ney na saída do Maksoud e percebi-o visivelmente 
alterado. Cheguei a comentar com minha esposa que ele parecia à beira do suicídio.
Márcio era o advogado do filho. Me ligou, pedi que me enviasse o inquérito, passei o fim de semana 
inteiro lendo-o e lá se constatavam as fragilidades da acusação. Ney passava por problemas sérios com 
a ABAG (Associação Brasileira do Agronegócio); já tinha falado em suicídio.
Assumi a defesa enfática do rapaz.
Outro caso foi o de Wagner Ramos, o funcionário da prefeitura de São Paulo que era o intermediário 
do Paulo Maluf nas jogadas com precatórios. Márcio providenciou uma longa entrevista com ele, 
tentando defender a legalidade das operações. Não me convenceu.
Quando escrevi o livro “O jornalismo dos anos 90”, descrevendo vinte casos de linchamento da mídia, 
ele foi um dos prefaciadores.
Indicado Ministro da Justiça, mostrou-se inteiramente aberto a mudanças. Queria de todo modo 
aperfeiçoar o Judiciário, melhorar as formas de combate ao crime organizado, dar novo status à Polícia 
Federal.
Acionou-me duas vezes.
A primeira, para ajuda-lo a pensar na informatização do Judiciário. Na época, eu havia escrito uma 
série de colunas sobre modelos de gestão no Judiciário, me aproximado dos grupos de juízes que 
batalhavam pela modernização do setor.
Montamos um grupo de trabalho que sugeriu um modelo baseado no software livre. Seriam 
identificados os melhores sistemas eletrônicos (o de Santa Catarina era o melhor). Em geral, esses 
sistemas estavam em softwares proprietários, especialmente da Microsoft. Mas a parte chave eram os 
processos internos – que estavam na cabeça dos analistas de cada tribunal. Seria montado um grupo de 
trabalho com o pessoal de informática dos diversos estados, que desenvolveriam em softwares abertos. 
Depois, os sistemas seriam disponibilizados para baixar em todos os municípios.
Márcio encampou com entusiasmo a proposta. Pediu-me que a apresentasse em uma reunião com 
presidentes de outros tribunais. Mas a influência da Microsoft era massacrante. E nos tribunais 
superiores os responsáveis pela informática não quiseram largar o osso.
Outra contribuição foi em um momento memorável, da criação do Sisbin (Sistema Brasileiro de 
Inteligência), juntando todas as entidades públicas que trabalhavam na repressão ao crime organizado – 
do Ministério Público e Polícia Federal à Receita, ao COAF (Conselho de Controle das Atividades 
Financeiras).
Parte central da atividade do crime organizado está no mercado financeiro. Nos anos 90, mais 
agudamente na CPI dos Precatórios, procurei entender os mecanismos que permitiam a lavagem de 
dinheiro – desde operações “esquenta-esfria” na Bolsa de Valores à compra fajuta de títulos públicos. 
Antes, já tinha ajudado Walter Maierovitch quando começou a estudar o assunto. E era muito crítico 
em relação à falta de conhecimento financeiro do MP e da PF.
Márcio montou um Seminário em uma cidade próxima a Brasília e convidou-me a proferir a palestra 
inaugural. Estavam presentes membros do MPF, Polícia Federal, Polícia Rodoviária, Fazenda, Receita, 
Banco Central, visando encontrar um modo de operação conjunto.
Sua orientação foi objetiva:
- Quero que você desça o pau na maneira como os inquéritos são conduzidos.
Durante uma hora, desci o pau. Critiquei a superficialidade das investigações, a falta de conhecimento 
sobre mercado financeiro, a falsa escandalização, o abuso na aproximação com os jornalistas. E me 
preparei para uma vaia que não veio.
Na mesa estava um MPF comandado por Cláudio Fontelles; uma PF por Paulo Lacerda. Tinha 
conhecido Paulo Lacerda em um seminário em Porto Alegre e ficara impressionada com seu 
conhecimento e seriedade.
Àqueles veteranos da maior envergadura – como ele e Fontelles – misturava-se uma rapaziada 
brilhante empenhada em mudar o país, que Márcio trouxera de São Paulo. Era uma síntese brilhante 
das figuras referenciais abrigando as novas gerações. E todos com um entusiasmo contagiante, passado 
por Márcio.
Quando a PF montou seu programa de qualidade, conversei com alguns dos delegados. A corporação 
havia fixado uma meta: ter o padrão FBI no país. O orgulho com a força estava estampada em todos os 
setores da PF.
Por onde passou, Márcio conseguia isso: estimular as pessoas a olharem o futuro e ir atrás. Pode ter 
errado no aconselhamento a Lula, na indicação de Ministros do STF. Mas seu trabalho no Ministério 
da Justiça foi grandioso.
No ano passado, combinamos um último almoço, que não deu certo por alguma razão. Nas últimas 
semanas estava pensando em convidá-lo para um novo almoço, para relembrar as grandes lutas.
Não sabia de sua doença.
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