Luis Nassif
Conheci Márcio Thomas Bastos no início de minha carreira de jornalista econômico. Louco para fugir
da cobertura usual da editoria de Economia da Veja – muito empenhada em vender o “Brasil Grande” –
passei a propor temas variados que quebrassem a aridez da cobertura.
passei a propor temas variados que quebrassem a aridez da cobertura.
Sugeri uma matéria sobre os agiotas. Toparam.
Fui até a Polícia Civil e me indicaram dois advogados promissores, que tinham agiotas como clientes.
Um foi-me apresentado como o mais “sagaz”, por manter contatos com delegados, praticar espertezas.
O outro, como mais culto, mas menos “malaco”.
O primeiro deve ter terminado em alguma porta de cadeia. O segundo era o Márcio. Nossa amizade
começou ali.
A propósito, o “causo” do agiota era saborosíssimo. Um senhor que emprestava dinheiro e, quando o
cliente não conseguia pagar, chamava-o no escritório, matava-o e enterrava-o na parede. O “Criminal
Minds” era pinto perto do espanhol agiota.
Voltamos a nos encontrar em vários episódios jornalísticos relevantes.
Um deles, foi na morte do empresário Ney Bittencourt Araújo, no qual seu filho foi acusado. Havia
dúvidas sobre se Ney havia se suicidado ou não. O delegado dava entrevistas sustentando que Ney
estava de bem com a vida. Pouco antes, cruzei com Ney na saída do Maksoud e percebi-o visivelmente
alterado. Cheguei a comentar com minha esposa que ele parecia à beira do suicídio.
Márcio era o advogado do filho. Me ligou, pedi que me enviasse o inquérito, passei o fim de semana
inteiro lendo-o e lá se constatavam as fragilidades da acusação. Ney passava por problemas sérios com
a ABAG (Associação Brasileira do Agronegócio); já tinha falado em suicídio.
Assumi a defesa enfática do rapaz.
Outro caso foi o de Wagner Ramos, o funcionário da prefeitura de São Paulo que era o intermediário
do Paulo Maluf nas jogadas com precatórios. Márcio providenciou uma longa entrevista com ele,
tentando defender a legalidade das operações. Não me convenceu.
Quando escrevi o livro “O jornalismo dos anos 90”, descrevendo vinte casos de linchamento da mídia,
ele foi um dos prefaciadores.
Indicado Ministro da Justiça, mostrou-se inteiramente aberto a mudanças. Queria de todo modo
aperfeiçoar o Judiciário, melhorar as formas de combate ao crime organizado, dar novo status à Polícia
Federal.
Acionou-me duas vezes.
A primeira, para ajuda-lo a pensar na informatização do Judiciário. Na época, eu havia escrito uma
série de colunas sobre modelos de gestão no Judiciário, me aproximado dos grupos de juízes que
batalhavam pela modernização do setor.
Montamos um grupo de trabalho que sugeriu um modelo baseado no software livre. Seriam
identificados os melhores sistemas eletrônicos (o de Santa Catarina era o melhor). Em geral, esses
sistemas estavam em softwares proprietários, especialmente da Microsoft. Mas a parte chave eram os
processos internos – que estavam na cabeça dos analistas de cada tribunal. Seria montado um grupo de
trabalho com o pessoal de informática dos diversos estados, que desenvolveriam em softwares abertos.
Depois, os sistemas seriam disponibilizados para baixar em todos os municípios.
Márcio encampou com entusiasmo a proposta. Pediu-me que a apresentasse em uma reunião com
presidentes de outros tribunais. Mas a influência da Microsoft era massacrante. E nos tribunais
superiores os responsáveis pela informática não quiseram largar o osso.
Outra contribuição foi em um momento memorável, da criação do Sisbin (Sistema Brasileiro de
Inteligência), juntando todas as entidades públicas que trabalhavam na repressão ao crime organizado –
do Ministério Público e Polícia Federal à Receita, ao COAF (Conselho de Controle das Atividades
Financeiras).
Parte central da atividade do crime organizado está no mercado financeiro. Nos anos 90, mais
agudamente na CPI dos Precatórios, procurei entender os mecanismos que permitiam a lavagem de
dinheiro – desde operações “esquenta-esfria” na Bolsa de Valores à compra fajuta de títulos públicos.
Antes, já tinha ajudado Walter Maierovitch quando começou a estudar o assunto. E era muito crítico
em relação à falta de conhecimento financeiro do MP e da PF.
Márcio montou um Seminário em uma cidade próxima a Brasília e convidou-me a proferir a palestra
inaugural. Estavam presentes membros do MPF, Polícia Federal, Polícia Rodoviária, Fazenda, Receita,
Banco Central, visando encontrar um modo de operação conjunto.
Sua orientação foi objetiva:
- Quero que você desça o pau na maneira como os inquéritos são conduzidos.
Durante uma hora, desci o pau. Critiquei a superficialidade das investigações, a falta de conhecimento
sobre mercado financeiro, a falsa escandalização, o abuso na aproximação com os jornalistas. E me
preparei para uma vaia que não veio.
Na mesa estava um MPF comandado por Cláudio Fontelles; uma PF por Paulo Lacerda. Tinha
conhecido Paulo Lacerda em um seminário em Porto Alegre e ficara impressionada com seu
conhecimento e seriedade.
Àqueles veteranos da maior envergadura – como ele e Fontelles – misturava-se uma rapaziada
Àqueles veteranos da maior envergadura – como ele e Fontelles – misturava-se uma rapaziada
brilhante empenhada em mudar o país, que Márcio trouxera de São Paulo. Era uma síntese brilhante
das figuras referenciais abrigando as novas gerações. E todos com um entusiasmo contagiante, passado
por Márcio.
Quando a PF montou seu programa de qualidade, conversei com alguns dos delegados. A corporação
havia fixado uma meta: ter o padrão FBI no país. O orgulho com a força estava estampada em todos os
setores da PF.
Por onde passou, Márcio conseguia isso: estimular as pessoas a olharem o futuro e ir atrás. Pode ter
Por onde passou, Márcio conseguia isso: estimular as pessoas a olharem o futuro e ir atrás. Pode ter
errado no aconselhamento a Lula, na indicação de Ministros do STF. Mas seu trabalho no Ministério
da Justiça foi grandioso.
No ano passado, combinamos um último almoço, que não deu certo por alguma razão. Nas últimas
semanas estava pensando em convidá-lo para um novo almoço, para relembrar as grandes lutas.
Não sabia de sua doença.
Não sabia de sua doença.
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