quarta-feira, 16 de julho de 2014

A Agonia do Cantareira (e do Alckmim) agora quase só um lamaçal



Por: Fernando Brito

A chuva da última semana pode ter causado uma sensação de alívio aos paulistanos, assombrados pelo fantasma da falta de água.
Infelizmente, isso é falso.
Ontem, a vazão dos rios que abastecem o sistema Cantareira voltou aos níveis terríveis que vinha apresentando em julho: pouco mais de 2,5 m³ por segundo, o que não chega sequer para compensar os 3 m³/s que é necessário liberar para que os rios Capivari, Jundiaí e Piracicaba sequem completamente.
Além desta água, saíram mais 1,8 bilhão de litros para o abastecimento de São Paulo.
No total, o sistema perdeu 2, 06 bilhões de litros.
Restam armazenados 174 bilhões, incluídos aí o “volume morto” que se planeja bombear, que representaria 182 bilhões de litros.
Se é que haverá, pelo menos no principal reservatório, o Jaguari-Jacareí, esta quantidade disponível para bombeamento, porque, há um mês eram retirados 21 m³/s dali e há alguns dias este volume vem caindo rapidamente: de 16,8 m³/s no dia 12 para 11 m³/s, ontem.
Não se sabe se por problemas nas bombas, decisão operacional ou, simplesmente, falta de água para ser bombeada.
Como disse outro dia, já não faz mais sentido falar em percentagens e estatísticas.
A conta é para quantos dias dá a água que se tem, porque a época é de seca e algumas chuvas podem aliviar, mas não resolvem.
A conta, portanto, mal passa de 84 dias.
Ou sete de outubro.
Ou dois dias depois da eleição, em primeiro turno.
Está explicado porque Geraldo Alckmin queria que a Agência Nacional de Águas o autorizasse a tirar “mais uns golinhos” do fundo do lodaçal que se transformou o reservatório Jaguari-Jacareí, cujas imagens só chegam a “conta-gotas” aos jornais?
Lodaçal, porque é isso o que mostram as poucas fotos que se publica do estado do reservatório (como esta da Folha, acima, não publicada no jornal, mas vendida pela agência Folhapress) na qual dragas “ligam” as poças ao canal principal para aproveitar cada gota que empoça.

A fraude no gráfico da Sabesp sobre a situação do Sistema Cantareira

O agravamento da situação no Sistema Cantareira, tratado aqui desde fevereiro, só vem a certificar aquilo que já se previa: redução rápida do volume morto e o desespero do governo de São Paulo para assegurar o fornecimento de água para 8 milhões de habitantes.
Que os sistemas do Alto Tietê e Guarapiranga estão combalidos todos sabemos. Apesar do esforço de Alckmin em insistir que não haverá racionamento, vários pontos da região metropolitana já registram as torneiras secas.
Mais grave ainda diante do caos que se avizinha é a maquiagem que a Sabesp passou a divulgar na sua página eletrônica. O site da não informa aos visitantes que a água do Sistema Cantareira pela primeira vez na sua história chegou ao fim.
Ilude o cidadão ao apresentar no gráfico que o volume útil conta com 18% de sua capacidade. Trata a soma do volume útil com volume morto sem apresentar a drástica situação do abastecimento.
Em 15 de janeiro, por exemplo, a Sabesp anunciava corretamente o volume do Sistema Cantareira oferecendo a possibilidade de o usuário comparar com outras datas o armazenamento, pluviometria do mês, do dia e a média histórica.
A versão atual é distorcida, quase um blefe. Entre 15 de janeiro e 15 de julho de 2014, dentro desse ilusionismo, o Cantareira reduziu seu volume em apenas 7%.



De fato temos saldo negativo. Inclui o volume morto no conjunto do sistema. A mágica da SABESP inova com gráfico vertical sem apontar que caminhamos a passos largos para o esgotamento do Cantareira.
Se fosse considerada a aritmética da SABESP e suas inovações no modo fazer conta, a cidade de Atibaia teria desaparecido em 2011. Naquele ano as enchentes que assolaram a região foram creditadas à ausência de compromissos firmados pela Sabesp na outorga do Sistema Cantareira de 2004, o desassoreamento de cursos d’água. Mesmo com liminar concedida na ocasião obrigando a Sabesp a realizar os compromissos da Outorga, o governo recorreu e venceu em instância superior.
A saída tresloucada desta semana, depois de prorrogada a renovação da outorga do Sistema Cantareira pela Agência Nacional das Águas, ANA, foi a transposição do Sistema Alto Tietê.
O cobertor está curto. A briga é longa e os conflitos já estão em curso, com a cidade de Campinas e região disputando cada metro cúbico de água por segundo. Não serão as mágicas das estatísticas da Sabesp que resolverão o problema.
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