domingo, 20 de abril de 2014

Eliécer Gaitán: O líder colombiano que inspirou Garcia Marquez



JORGE GAITÁN (23/01/1903 - 9/04/1948, Bogotá/Colômbia) 



JORGE ELIÉCER GAITÁN E A UTILIDADE DA MEMÓRIA

Por Jota A. Botelho


ABRIL DE 1948: COLÔMBIA EM CHAMAS - O 'BOGOTAZO' 

Há uma velha canção de Joan Manuel Serrat baseado em um poema de Antonio Machado, chamado "La saeta", que na voz dos ciganos da Espanha é um lamento: “No eres tú mi cantar. No puedo cantar ni quiero a ese Jesús del madero, sino al que anduvo en la mar".Creio que poderia dizer algo semelhante sobre a memória do líder liberal Jorge Gaitán, pois desde seu assassinato em 09 abril de 1948 é lembrado mais pelo seu sacrifício e as desordens que se seguiu, do que pelo seu pensamento e obra de quem participou ativamente durante mais de vinte anos da vida política nacional. É bom lembrar que Jorge Eliécer Gaitán não foi somente um candidato presidencial assassinado, mas um político, que em sua curta vida, conseguiu ocupar posições importantes, como o de representante no Congresso Nacional, Ministro da Educação e do Trabalho, juiz da Suprema Corte de Justiça e prefeito de Bogotá. Durante sua gestão nessas instituições, Gaitán chegou a introduzir inovações administrativas e colocar em discussão temas inéditos na administração nacional. Em 1929, por exemplo, enquanto era membro do Congresso, ele foi o primeiro a debater em nível nacional sobre o incidente do massacre nas plantações de bananas, que ocorreu em dezembro do ano anterior, onde ele denunciou a gravidade da repressão militar no Departamento Magdalena, quando da greve dos trabalhadores. O incidente do massacre dos trabalhadores, mais tarde seria imortalizada na obra de Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão. Mas foi difundido num primeiro momento pela voz poderosa e inflamada da oratória do jovem liberal no Congresso da República.
Logo depois, quando era ministro da Educação, Gaitán defendeu a proposta da merenda escolar para todos os estudantes do país, e como prefeito de Bogotá ordenou campanhas de higiene entre a população, como o uso obrigatório de sapatos e uniformes para os funcionários público. Essas medidas resultaram em uma melhoria na qualidade de vida de milhares de crianças e na dignidade e saúde dos trabalhadores da capital. Também, ainda na posição de prefeito da capital, Gaitán inaugurou a primeira Feira do Livro de Bogotá (Gaitán era filho de uma professora e de um livreiro), evento que acontece até hoje, precisamente no mesmo mês de seu assassinato, associando-se os dois acontecimentos. Jorge Eliécer Gaitán também mudou para sempre a política colombiana em seu papel como candidato nas campanhas presidenciais de 1946 e 1950. Em primeiro lugar, ele foi um dos primeiros a reinvindicar a proteção das classes populares. Neste momento, na América Latina, surgiu o alvorecer de uma nova força que eram as classes trabalhadoras e camponesas que se levantaram para exigir um papel ativo na sociedade. O crescimento da população e da migração, do campo e da cidade, para trabalhar nas indústrias emergentes, que foram montados na América do Sul, trouxeram o surgimento de uma grande massa urbana que se abrigava nos líderes populares como Juan Domingo Perón, na Argentina, e Lázaro Cárdenas, no México, onde defendiam o nacionalismo e uma vida digna para todos. Na Colômbia, Jorge Gaitán foi este líder, em sintonia com este fenômeno continental, e sua constante adesão aos menos favorecidos, acima dos partidos Liberal e Conservador, onde introduziu um novo discurso social ao já discurso político existente da segunda metade do século XX(...). Outra mudança radical nas práticas políticas da Colômbia, associadas com as campanhas gaitanistas, foi o surgimento apaixonado pelas questões da vida cotidiana devido aos seus discursos em que esses temas eram tratados(...).
Infelizmente, a brilhante carreira de Jorge Eliécer Gaitán foi violentamente destruída em 9 de abril de 1948, quando se projetava como o favorito para vencer a eleição presidencial em 1950. O dia de sua morte desatou em todo o país a fúria popular de uma nação que se sentiu frustada em suas esperanças mais profundas. Por isso, de certa forma, é incorreto continuar falando sobre o "Bogotazo" para lembrar esse dia, pois não foi só em Bogotá que os incidentes ocorreram contra o governo conservador. Em 09 de abril de 1948, não só havia uma revolta popular sem controle, mas uma verdadeira tentativa de revolução. Em lugares como Barrancabermeja, por exemplo, foi criado por mais de uma semana, um autodenominado “governo popular”, que tomou o poder em nome de seu líder assassinado, e em muitos povoados e outras cidades do país, batalhões foram organizados com caráter revolucionário, apesar de terem sidos derrotados pelos conservadores no poder. (...) Mas a lembrança mais triste de 09 de abril tem sido o de lembrar a data do assassinato de Jorge Eliécer Gaitán, (...) cuja voz e ideias ainda reverberam 66 anos após a sua morte.


[Trechos traduzidos e baseados no Blog Casa de La Historia Diana Uribe, por Nicholas Pernett, 
Historiador]
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1- O Bogotazo.
2- Os discursos de Gaitán e o surgimento das Farc e seu líder Tirofijo.
3&4- Documentário da Telesur sobre Jorge Eliécer Gaitán e o massacre de Bogotá.
5- Pacho Galán Y Su Orquesta - A La Carga! (grito de guerra de Jorge Eliécer Gaitán).
6- La Saeta, de Joan Manuel Serrat (voz), baseado no poema de Antonio Machado.
7- Trecho da minissérie da Televisão Colombiana "Revivendo nossa história: El Bogotazo", produzida por Daniel Lemaitre, com roteiro de Carlos José Reyes, 1982.
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