quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A historinha mal contada do rojão



Por: Fernando Brito

Volta e meia, lendo o que escreve Janio de Freitas, acabo por lembrar que ainda existe jornalismo no Brasil.
Porque, no mais das vezes, a apuração jornalística é igual a inquérito policial mal-feito: depende apenas do que as pessoas dizem ou confessam.
Hoje, Janio fotografa o mar de contradições e reticências que virou a cobertura da prisão dos dois confessos disparadores do rojão que matou o cinegrafista Santiago Andrade.
E, sinceramente, é preocupante a rapidez com que o delegado – até agora competente na prisão dos responsáveis diretos – diz que vai concluir o inquérito e entregá-lo à Justiça, amanhã.
Preocupa, também, o Ministério Público, ao menos que se saiba, não estar acompanhando o inquérito policial.
O que disse o advogado dos acusados é extremamente sério para ser ignorado.
Resume Janio:
“Os manifestantes violentos são pagos.” Quem paga? “Vão buscá-los em casa.” Quem vai? “Tem organização por trás deles.” Quem? “É preciso investigar vereadores, deputados, diretórios regionais de partidos.” Quem? Quais? “Minhas conversas indicaram, é preciso investigar vereadores, deputados, diretórios regionais, não só do Rio, de São Paulo e outros Estados também.” “Vereadores, deputados, diretórios”, “vereadores, deputados, diretórios” –sem fim. Quem e quais? “Não me disseram.”
Opa! Ou se trata de uma grosseira chicana jurídica, para semear confusão ou é algo que leva a responsabilidades muito além de dois rapazes irresponsáveis e com desvios de personalidade.
Há um monte de perguntas não respondidas e que se tem de responder com os fatos que não surgirão sem investigação.
Como apareceu o rojão assassino? Brotou do chão? Fábio o achou, não sabia o que era, deu para alguém que não sabia quem era, esse alguém o disparou?
Fábio era ou não era tatuador profissional? onde estão os clientes que pagavam por seus serviços, pelos quais sustentava o aluguel de um apartamento? Há um contrato de locação? Eram os pais que pagavam? Por que?
Porque Caio recusou-se a falar senão em juízo, um garoto que é inexperiente, estava apavorado e passou horas ao lado dos policiais que o detiveram? Como, se assumiu a culpa pelo disparo – o que o coloca diretamente como réu em crime de homicídio – em entrevista à Globo, calou-se para só falar em juízo? Obvio que foi por orientação do advogado, logo ele, um falastrão.
E, claro, toda a série de perguntas que Janio elenca, mas que podem ser respondidas por uma investigação policial eficaz.
Porque não fazê-la, se os prazos legais ainda estão no início e os dois estão presos? E a prisão temporária, que depende de indícios suficiente de autoria e de que, livre, o acusado possa interferir na apuração do fato (coagindo ou orientando testemunhas, por exemplo), seria facilmente decretada, e esta não tem prazo para caducar.
Ora, se a investigação policial precisa ir a estes pontos, por que é que a investigação jornalística não deveria fazê-lo?
Não é indo ouvir os vizinhos para saber se Fábio era “bom” ou “mau” rapaz, com certeza.
Os bobalhões da extrema esquerda, que já serviam de biombo para os interesses da direita com a simbiose com arruaceiros, vão servir de bode expiatório também na responsabilização criminal?
Os meandros e os podres desta onda de provocação precisam vir à tona, se de fato se quer exorcizar os demônios que transformaram manifestações em infernos.



Como se falou aqui, antes, está mal contadíssima a história dos dois rapazes envolvidos no disparo do rojão que matou Santiago Andrade.
Hoje, Caio de Souza deu um depoimento a Polícia Civil, obtido pela repórter Carolina Heringer, do jornal Extra, em que diz que Fábio raposo acendeu o rojão e ele o colocou no chão. Disse que há pagamento de passagens, refeições e ““que há pessoas que aliciam os jovens para participar das passeatas e já foi convidado para participar de forma remunerada”.
Na CBN, o polêmico advogado Jonas Tadeu, que representava os dois acusados, disse que vai abandonar o caso.
Tem batata nessa chaleira, como dizia o velho Brizola.
Leia o conteúdo do depoimento, na versão publicada pelo Extra:
Caio disse que Fábio o atiçou para disparar o rojão, dizendo “Solta, solta…”, no momento em que entregou a ele o artefato e que o tatuador disse ainda “Acende aí”. Mas, segundo a versão de Caio, quem acendeu o explosivo foi o próprio Fábio. Caio teria apenas segurado o artefato e o colocado no chão já aceso. O rapaz alega ainda ter achado que o explosivo era um sinalizador.
Ainda no depoimento, Caio admite que “nem sempre participou do movimento Black Bloc, porque trabalha e nem sempre consegue participar das manifestações”. Caio contou também que esteve na ocupação na Câmara de Vereadores do Rio, no fim de 2013, onde “teve a oportunidade de ver a chegada de até cinquenta quentinhas para alimentar os ativistas”. Ele afirma ainda “que há pessoas que aliciam os jovens para participar das passeatas e já foi convidado para participar de forma remunerada”.
Caio negou conhecer as pessoas que aparecem na manifestação e oferecem dinheiro a quem participa do ato. Segundo ele, “elas falam que se tiver com dificuldade financeira para voltar na próxima (manifestação), pode pegar com eles o dinheiro da passagem, bem como aparecem com lanches e quentinhas”.
Sobre financiadores de protestos, Caio disse que eles existem. Ele revela que chegou a ver um papel onde a contabilidade do dinheiro distribuído aos manifestantes era feita. Segundo ele, esse papel apareceu no Facebook do Anonymous Rio e do Black Bloc porque “existem discordâncias entre os próprios ativistas”. De acordo com Caio, a ativista Elisa Quadros, conhecida como Sininho, foi quem passou a contabilidade para um amigo, que o colocou na rede social.
Ainda de acordo com o depoimento, Caio nega ter sido chamado pela ativista Sininho para as manifestações. Ele diz que sabe que ela é uma das pessoas que organizam os protestos: “Não acho que ela seja líder, mas manipula a forma como a manifestação vai acontecer”.
Caio informa ainda que era convocado para os protestos por meio de seu perfil no Facebook, que depois o próprio jovem apagou. O rapaz conta também que algumas pessoas nos protestos são encarregadas de distribuir pedras e apetrechos, mas nega saber quem elas são. Caio admite que conhece Fábio Raposo das manifestações e que já o viu participando de outros atos usando máscara de gás.
Envolvimento de partidos
Em outro trecho do depoimento, Caio não é taxativo mas diz acreditar “que os partidos que levam bandeira são os mesmos que pagam os manifestantes”. Ele informa já ter visto “bandeiras do PSol, PSTU e Fip (Frente Independente Popular), sendo esta um dos grupos que organiza reuniões plenárias”.
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