quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A Barbie da direita é seletiva: peguem leve com o Justin e dêem um pau no neguinho. Assista



Por: Fernando Brito

Raquel Sheherazade, apresentadora do SBT transformada em Barbie da direita e musa dos recalcados, não é uma moça tão inflexível assim, afinal.
Ela tem compreensão e coração generoso, capaz de perdoar.
Seletivamente, é claro.
Está no Youtube uma colagem chocante.
Primeiro, os comentários da Barbie do SBT sobre as traquinagens e transgressões que acabaram levando o “astro” (astro?) Justin Bieber a ser detido por participar de um “pega” de rua, drogado e embriagado. Dias depois, já solto, foi acusado pela polícia de Montreal, no Canadá – país de 0nde é cidadão – de agredir um motorista com golpes na cabeça.
Pura compreensão: “atire a primeira pedra quem nunca foi um rebelde sem causa, quem nunca questionou seus valores, quem nunca se perdeu de si mesmo ou procurou se encontrar. Os médicos dizem que é normal, é a síndrome da adolescência, para anônimos e famosos, como Justin, é fase de turbulência, hormônios em ebulição, conflitos, agressividade, é a busca da própria identidade. Peguem leve com Justin, o menino está só crescendo.
Justin Bieber, como se sabe, faz 2o anos daqui a menos de um mês.
A seguir, porém, você assiste como Sheherazade diz que se deve agir com um rapazote negro, pobre, de 15 anos, supostamente metido em delitos, espancado por “justiceiros” e acorrentado a um poste pelo pescoço, no Rio.
Pau nele, diz a moça!
Outro Barbie, o Klaus, que ganhou o apelido de “Carniceiro de Lyon” , também pensava nessa solução para aqueles “judeus usurários…”
Não, claro que a nossa Barbie não é anti-semita.
Sua impiedosa verve, ainda que lida num teleprompter, é seletiva em outro tom, mas na mesma pauta: a da ordem.
Quem sabe ela não faz um outro texto destes mandando descer a lenha também nos camelôs, estes desordeiros que não pagam impostos e atrapalham as pessoas de bem que andam pelas ruas?
Estes párias da sociedade, como um dia foi o patrão dela, Sílvio Santos, judeu e camelô.
Que agora a paga regiamente para apregoar na TV sangue e linchamento.
Para o negrinho, claro.
Para o Bieber, devemos pegar leve.
É apenas um menino, embora cinco anos mais velho que o que é negro e merece a chibata acorrentado no poste.



Nota de repúdio do Sindicato e da Comissão de Ética contra declarações da jornalista Rachel Sheherazade

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro e a Comissão de Ética desta entidade se manifestam radicalmente contra a grave violação de direitos humanos e ao Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros representada pelas declarações da âncora Rachel Sheherazade durante o Jornal do SBT.
O desrespeito aos direitos humanos tem sido prática recorrente da jornalista, mas destacamos a violência simbólica dos recentes comentários por ela proferidos no programa de 04/02/2014 (http://www.youtube.com/watch?v=nXraKo7hG9Y). Sheherazade violou os direitos humanos, o Estatuto da Criança e do Adolescente e fez apologia à violência quando afirmou achar que “num país que sofre de violência endêmica, a atitude dos vingadores é até compreensível” — Ela se referia ao grupo de rapazes que, em 31/01/2014, prendeu um adolescente acusado de furto e, após acorrentá-lo a um poste, espancou-o, filmou-o e divulgou as imagens na internet.
O Sindicato e a Comissão de Ética do Rio de Janeiro solicitam à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) que investigue e identifique as responsabilidades neste e em outros casos de violação dos direitos humanos e do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, que ocorrem de forma rotineira em programas de radiodifusão no nosso país. É preciso lembrar que os canais de rádio e TV não são propriedade privada, mas concessões públicas que não podem funcionar à revelia das leis e da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Eis os pontos do Código de Ética referentes aos Direitos Humanos:
Art. 6º É dever do jornalista:
I – opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios
expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos;
XI – defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias
individuais e coletivas, em especial as das crianças, adolescentes, mulheres, idosos,
negros e minorias;
XIV – combater a prática de perseguição ou discriminação por motivos sociais,
econômicos, políticos, religiosos, de gênero, raciais, de orientação sexual, condição física
ou mental, ou de qualquer outra natureza.
Art. 7º O jornalista não pode:
V – usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime;
Também atuando no sentido pedagógico que acreditamos que deva ser uma das principais intervenções do sindicato e da Comissão de Ética, realizaremos um debate sobre o tema em nosso auditório com o objetivo de refletir sobre o papel do jornalista como defensor dos direitos humanos e da democratização da comunicação.
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