terça-feira, 9 de outubro de 2012

O segredo de Mick Jagger e Keith Richards para salvar o seu negócio

Na parceria ideal, os egos devem ser domados em nome de um bem comum

Este artigo foi publicado originalmente na revista Alfa.
Há três formas de atuar em dupla. A primeira, desastrosa, é do tipo Tom & Jerry: ambos os personagens, não importa quem é o gato ou o rato, batem de frente o tempo todo e, no final, não saem do mesmo lugar. A segunda maneira, mais produtiva, adota o modelo Lennon & McCartney, que traz ótimos resultados, mas tem prazo de validade. A melhor fórmula parece ser a de Keith Richards e Mick Jagger, que mantêm as pedras dos Rolling Stones rolando bem há 50 anos. A sabedoria, portanto, não está apenas em desenvolver uma parceria de sucesso em que cada um dá o melhor de si para um resultado excelente, mas sim em mantê-la viva. É que a destruição pode chegar cedo ou tarde, geralmente pela ingestão de um trago letal que contém ego, vaidade e ambição. Costuma ser tomado em doses homeopáticas diárias, mas progressivas à medida que se alcança o topo. Até matar.
No mundo empresarial não é diferente. No entanto, a maioria dos gurus de gestão e autoajuda em carreira costuma dar pouca atenção às parcerias e prefere priorizar questões como inovação, liderança ou novos modelos de negócio. Numa abordagem individualista, eles contam com a cumplicidade da mídia, que costuma colocar holofotes sobre super-heróis capazes de promover revoluções nas empresas por meio de suas ideias e de suas iniciativas pessoais. Mas o que os habitantes do universo corporativo estão carecas de saber começa a vir à tona: nada se consegue sozinho. Felizmente, a importância das parcerias começa a receber atenção. Há um fato que ajuda nessa mudança de ventos: a tecnologia da informação, ao engolir distâncias, permitiu também a aproximação de talentos de qualquer parte do mundo a custos viáveis em prol de projetos das empresas. Mas para isso é vital uma mentalidade que privilegie a colaboração, sem estrelismos, em que todos contribuam para um resultado coletivo.
Um passo de grande poder simbólico acaba de ser dado por ninguém menos que Michael Eisner, ex-poderoso chefão da Disney. Ele está mais que habilitado para isso: em 21 anos, transformou uma empresa de filmes e parques temáticos de 1,8 bilhão de dólares num império de mídia global de 80 bilhões de dólares ao deixar o posto, em 2005. Rasgando a fantasia dos louros pessoais, Eisner tomou coragem e acaba de escrever o livro Working Together — Why Great Partnerships Succeed (“Trabalhando junto — Por que as grandes parcerias dão certo”, não traduzido para o português). Na obra, revela que bons parceiros foram fundamentais para seu sucesso. Destaca os dez anos mais importantes de sua carreira na Disney, ao lado de Frank Wells, seu melhor colega de atuação e que morreu em um desastre de helicóptero. Eisner amargou com o substituto, Michael Ovitz, que brilhou individualmente, mas que no comando da Disney provocou a saída de talentos e crises operacionais seguidas até que ele próprio se foi, abraçado a um caminhão de dinheiro, 14 meses depois.
Além de falar sobre seu bem-sucedido período de trabalho com Wells, Eisner cita no livro outras grandes parcerias do mundo dos negócios nos Estados Unidos. Graças ao relacionamento acumulado ao longo dos anos em um cargo de imensa visibilidade, o que o permite bater à porta de famosos a qualquer hora, ele entrevistou várias personalidades, como o badalado financista Warren Buffett, que diz que não seria nada sem o desconhecido Charlie Munger. Ou Bill Gates, fundador da Microsoft, que, depois de boas parcerias com Paul Allen e Steve Ballmer, hoje cuida de uma fundação ao lado de sua esposa, Melinda. Gates revela que a única coisa que realizou até hoje sem a ajuda de ninguém foram provas escolares. Seguem-se ainda depoimentos ecléticos e diversificados, do costureiro Valentino ao diretor de cinema Ron Howard, de um dos criadores do retumbante night club nova-iorquino Studio 54 e dos hotéis-butique Morgans aos fundadores da gigantesca rede de produtos para casa Home Depot.
A conclusão desses depoimentos é que parceria no trabalho se parece com um casamento: ou pesa o amor ou surge o ódio. O desafio é impedir que o segundo prevaleça, já que o universo costuma conspirar contra duplas de sucesso. Para se precaver, um duo feliz precisa ser unido, saber se curtir, quase se amar. Há um delicado equilíbrio: só dão certo os que gostam da companhia um do outro, mas a convivência não pode ser pretexto para o desrespeito. Como no matrimônio, lavagem de roupa suja e discussão da relação são saudáveis. Foi assim com Richards e Jagger, cujas brigas colocaram a banda em risco até que as diferenças entre os dois se acertaram, em 1989, sob o céu estrelado do território neutro de Barbados. Três fatores pesaram na decisão: a amizade entre os músicos, o reconhecimento de que juntos eles eram bem melhores que separados e, sobretudo, o mútuo amor pelo dinheiro. Algo parecido ocorreu quando Bill Gates, um centralizador assumido, estava a ponto de defenestrar Steve Ballmer da direção da Microsoft. Até que, depois de muita briga de poder, os dois resolveram fumar o cachimbo da paz em um jantar em Seattle.
O fato é que, para cada Hewlett que se junta a um Packard para formar a HP ou para cada Larry Page que se une a um Sergey Brin para dar luz a um Google, há centenas de parcerias que acabam no cemitério da disfuncionalidade. Exemplos não faltam. O que faz uma dupla dar certo? Além de compartilhar e assim multiplicar talentos, ambos confiam cegamente um no outro. Debatem entre si, ampla e livremente, mas de forma privada, suas ideias antes de implantá-las. Mas, uma vez acordadas, contam com o apoio absoluto do parceiro, mesmo diante de tsunamis de críticas azedas. O ego, reconhecido como o maior predador natural da harmonia entre duplas, deve ser domado sem piedade. O brilho pessoal não pode se tornar empecilho para a felicidade geral do negócio. As melhores duplas blindadas contra o olho gordo são as que não só cedem espaço ao livre exercício de características pessoais de cada um, mas que dividem com igualdade os ganhos financeiros e os louros do sucesso, independentemente das contribuições individuais para determinado projeto. Dá para fazer sucesso sozinho? A resposta vem de Eisner: sim. “Mas não é tão divertido. Fica faltando o que só se consegue em um trabalho em parceria: a felicidade”, conclui.
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