quinta-feira, 22 de março de 2012

Polícia mata o assassino de Toulouse

Gianni Carta, CartaCapital 
  

Os ódios se mesclam 

"Mohammed Merah “não manifesta arrependimento algum” por ter assassinado um rabino e três crianças numa escola judaica e mais três soldados na região de Toulouse, no sudoeste da França, na segunda 19.
Cercado em um prédio, o cidadão francês de origem argelina de 24 anos disse aos policiais que ficou feliz em ter “colocado a França de joelhos”. Seu único “arrependimento” foi o de “não ter feito mais vítimas”.
Merah, que se diz integrante da Al-Qaeda, elencou em telefonema a uma jornalista da tevê francesa France 24 os motivos de seus ataques: a lei a banir o véu para muçulmanas, em vigor desde abril de 2011; a participação de soldados franceses nas operações da OTAN no Afeganistão; e o assassinato de “nossos irmãos” na Palestina por “judeus”.
Quem é esse psicopata?” Segundo as autoridades francesas, em 2008 ele fugiu de uma prisão em Kandahar, onde esteve preso com um grupo de integrantes do Talibã. Merah havia sido condenado a três anos de cadeia por ter tentado bombardear a cidade afegã. No entanto, as autoridades afegãs disseram ao diário britânico The Guardian que Merah foi deportado de Kandahar para a França, mas jamais foi preso.
Há anos Merah era seguido pelos serviços de inteligência do ministério francês do Interior (DCRI, na sigla em francês) devido às suas viagens ao Paquistão e Afeganistão. Na França, era conhecido pela polícia por ter cometido dezenas de crimes, alguns a envolver violência.
Mas ninguém do DCRI parecia prever que Merah pudesse assassinar judeus e soldados.
O jornalista italiano Ernesto Galli dela Loggia, do diário Corriere della Sera, defende a tese de que o Estado-Nação, hoje sem soberania, era o “único que poderia fazer prevalecer a democracia”. Por conta dessa ausência do Estado-Nação predomina o “autogoverno dos povos”. E, por tabela, de desequilibrados como Merah.
Mais realista, Barbara Spinelli, do diário também italiano, o La Repubblica, rebate: “O Estado-Nação produziu a democracia moderna, mas também males indizíveis: nacionalismos, fobias no que toca as impurezas étnico-religiosas, guerras”.
E é aí que mora o eterno problema: os benditos ódios raciais.
Mas o que os provoca? Deixemos as inúmeras respostas para os sociólogos, mas transparente é isto: os ódios se mesclam. Merah odiava os judeus, mas também os seus conterrâneos franceses, como os três paraquedistas que matou antes de pôr fim na vida do rabino e das três crianças. Sejam eles de origem árabe ou não, por que, indagava-se Merah, participaram de uma intervenção no Afeganistão?
Qualquer que seja o alvo de desequilibrados, o sociólogo e historiador francês Pierre-André Taguieff tem razão: a judeofobia cresce na França. E Merah cometeu o maior ataque antissemita na França desde o atentado a bomba do restaurante parisiense de gastronomia judaica de Jo Goldenberg, em 1982.Segundo uma pesquisa realizada pela Anti-Defamation League, publicada na terça, o nível de antissemitismo da população aumentou em 24% em relação a 20%, em 2009. Para 45% dos franceses entrevistados, os judeus são mais leais a Israel do que à França. Mais: 35% acha que os judeus têm demasiado poder sobre os mercados internacionais financeiros. E 35% crê que os judeus falam demais sobre o Holocausto.
Parece um paradoxo, mas Merah era semelhante a Andres Breivik Behring.  O ultranacionalista, racista e antifeminista norueguês foi o autor dos ataques que mataram 77 pessoas em julho, na Noruega. Massacrou jovens compatriotas de olhos claros como os seus, mas culpados, segundo o terrorista acreditava, por pertencerem a uma agremiação esquerdista em prol da integração social dos estrangeiros, principalmente dos muçulmanos.
Merah e Breivik Behring são extremistas intolerantes e violentos. Matam o “outro”.
Nesse mundo a atravessar uma crise econômica global, ambos se sentiam desenraizados, e assim, dependendo das circunstâncias assassinariam judeus e muçulmanos da mesma forma. São farinha do mesmo saco.
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