Líder católico se encontra em Havana com Raúl Castro e “seus familiares”
e, do alto de seu trono de monarca absoluto, fala em ajudar país na
transição para democracia. Foto: Osservatore Romano/AFP.
Por Wálter Maierovitch
Hoje, em Havana e no ‘Palacio de la Revolucion’, o papa Ratzinger
encontrará Raúl Castro e os “seus familiares”, diz o comunicado oficial
de imprensa distribuído aos jornalistas.
Como já consignei neste espaço, estará presente Fidel Castro, que foi
aluno de colégio jesuíta e que revisita questões teológicas como
revelou, tempos atrás em entrevita, o seu amigo frei Beto.
Castro tem grande admiração por Cristo, o maior de todos os
revolucionários. Lógico, por ter sido Cristo um revolucionário perfeito.
O seu único ato de violência, sem lesões ou torturas, representou um
desabafo contra a hipocrisia e ficou conhecido ‘ira santa’. A formação
de Castro não pesou na Constituição cubana que coloca o Estado como
comunista e ateu.
Em 1998, o papa Wojtyla, na viagem a Cuba, foi recebido por Fidel,
num encontro entre chefes de estados, ou seja, de Cuba e do Vaticano.
O encontro, há 14 anos, surpreendeu e, passado o tempo, pode-se
concluir que resultou numa abertura mais profícua em direção à
liberdade religiosa na Ilha.
Fidel conhecia o anticomunismo presente no ‘DNA’ de Wojtyla e do seu
papel fundamental na derrubada do Muro de Berlim. Mas, num jogo
político, o líder cubano tinha também um invejável currículo, este de
resistência ao imperialismo norte-americano.
Nesse jogo, contaram até os detalhes e Fidel mostrou-se esmerado. Por
exemplo: Wojtyla, — e o mesmo ocorreu com Ratzinger—, começou a visita
por Santiago. Conta a história que a “Revolução Cubana” começou ali, com
o ataque em 26 de julho de 1953 ao quartel Moncada. Essa ação não teve
êxito imediato e foi executada por um grupo de rebeldes comandado por
Fidel Castro.
Serviu, no entanto, para o corrupto ditador cubano Fulgêncio Batista,
mantido pelos EUA e pela Cosa Nostra siculo-americana, começar a fazer
as malas, acertar com Franco o exílio dourado na Espanha e se apropriar
de fortunas pertencentes ao povo.
Ratzinger, especialista em homéricas trapalhadas no seu pontificado
reacionário, poderá, a qualquer momento, pisar na bola e deixar o
cardeal de Havana, Jaime Ortega, sem sustentação.
Ontem, em Santago, o papa Ratzinger conseguiu fazer, para a alegria
dos diplomatas de batina, a lição de casa. Saudou, além dos fiéis, todos
os habitantes “desta bela ilha”. E saudou, também, “todos os cubanos
onde quer que se encontrassem”. Com isso, alertam os vaticanistas que
acompanham Ratzinger na viagem, o papa deu um recado, pois englobou os
exilados, os presos políticos e as dissidentes Damas de Branco, que
anunciaram 150 prisões às vésperas da chegada do pontífice.
Ratzinger deixará Cuba amanhã na parte da tarde, depois de uma
celebração na ‘Plaza de la Revolución” e já destacou que muitas questões
merecerem avanço nas relações bilaterais.
Pano rápido. Ratzinger falou em ajudar nessa fase de passagem, “sem
traumas”, para a democracia. Do alto do seu trono de monarca absoluto e
já com experiência de quem reprimiu os adeptos da Teologia da
Libertação, Ratzinger, efetivamente, terá muito a ajudar.
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