Vicejou nos anos 2000 a ideia de que os EUA e a China vivem uma
simbiose, a “Chimérica”, um sistema único que representava um quarto da
população, um terço da economia e metade do crescimento do planeta, no
qual chineses financiam e abastecem estadunidenses que em troca lhes
oferecem seu mercado consumidor e financeiro. Combinada à ilusão
monetária causada pela subvalorização do yuan, que fez o peso do setor
externo na economia chinesa parecer maior do que realmente é, essa
meia-verdade criou a ilusão de que Pequim teria seu crescimento pautado
pelos EUA e jamais ousaria desafiá-lo.
Mas a reação da China à crise de 2008 mostrou que o país quer
-continuar a crescer sem depender do Ocidente e tem planos mais
ambiciosos do que lhe servir de periferia industrial. E o próprio
inventor da Chimérica, o historiador britânico Niall Ferguson, passou a
prever, em 2010, o fim da parceria.
Enquanto tentam promover o uso internacional do yuan
com acordos bilaterais com parceiros comerciais, os chineses começaram a
reduzir rapidamente o peso dos títulos do tesouro dos EUA em suas
reservas. Em 2002, 75% das reservas chinesas eram denominadas em dólares
e esse número pouco se alterou até 2006, mas caiu para 65% em 2010 e
para 54% em meados de 2011: 1,73 trilhão de dólares em um valor total
equivalente a 3,2 trilhões. No final de 2011, o valor parece ter caído
para 1,15 trilhão. A compra de T-bonds representou apenas 15% do
crescimento das reservas chinesas nos 12 meses terminados em 30 de junho
de 2011, ante 45% em 2010 e 65% na média dos últimos cinco anos. Nem a
crise do euro reverteu a tendência – pelo contrário, os chineses
aproveitaram seu barateamento para acelerar a diversificação, enquanto
países como Japão e Brasil continuam a financiar Tio Sam.
Outro movimento é o deslocamento do foco da economia, das exportações
para o mercado interno. Isso significa reduzir incentivos e privilégios
dos exportadores e melhorar os salários e benefícios sociais dos
trabalhadores para que estes se sintam seguros para consumir mais e
poupar menos. Ao mesmo tempo, aumenta a preocupação do governo com
reduzir emissões de carbono e melhorar os padrões de saúde, educação e
preservação ambiental.
É uma operação delicada, pois mexe com as estruturas econômicas e
interesses consolidados e a transição pode criar desemprego em setores e
metrópoles inteiras que se criaram em -função do mercado externo –
como, por exemplo, Shenzhen, que saltou de 300 mil para 10 milhões de
habitantes em 30 anos, ao se tornar a mais importante Zona Econômica
Especial do país.
Significa também desacelerar o crescimento. Em 5 de
março, o primeiro-ministro Wen Jiabao abriu a Assembleia Popular
Nacional com o aviso de que em nome de um “crescimento sustentável e de
melhor qualidade”, a meta de expansão do PIB em 2012 será de “apenas”
7,5%. É a primeira vez, desde que medidas anti-inflacionárias reduziram o
crescimento a 4% em 1989-90 e criaram o clima para os protestos da
Praça Tiananmen, que o governo chinês se atreve a deixar o país crescer
menos de 8% ao ano. Hoje, o crescimento da força de trabalho é menor,
mais de metade já vive em cidades e o êxodo rural é menos intenso, ao
-mesmo tempo que a maior ênfase no mercado interno significa mais
crescimento dos serviços e menos de indústrias de capital intensivo,
absorvendo mais mão de obra com menos crescimento.
Isso joga água fria na fervura dos setores minerais e agrícolas de
outros países que faziam a festa com o boom industrial chinês, mas pode
ser bom para seus setores industriais. Com maiores custos de mão de obra
e crescimento mais direcionado ao mercado interno, a China concorrerá
menos e oferecerá mais oportunidades, enquanto se volta para produtos
mais sofisticados. O país que desde 2007 é o maior exportador do mundo
será em 2014 também o maior importador, segundo as projeções de The
Economist. Superará os EUA no tamanho de vendas no varejo também em 2014
e em gastos dos consumidores em 2023. Vale lembrar que em 2010 já o
ultrapassou em produção industrial, consumo de energia e vendas de
veículos.
Mas a transformação da China em superpotência tem um aspecto mais
incômodo para o Ocidente, que é o crescimento de seu poderio militar e
estratégico. Sua capacidade militar há muito basta para a defesa, mas a
transformação da nação fechada e autossuficiente da era maoísta em
potência que demanda insumos de todo o planeta – inclusive da América
Latina e África, que EUA e União Europeia, respectivamente, tratavam
como seus “quintais” – implica, mais cedo ou mais tarde, em capacidade
militar para dissuadir rivais de ameaçar seus aliados, fornecedores e
rotas comerciais em todo o planeta.
Mesmo com o pé no freio da economia, Pequim amplia suas forças
armadas. No orçamento de 2012, os gastos militares crescem oficialmente
11,2% (ante 12,7% em 2011) e atingem 106 bilhões de dólares e 2,1% do
PIB. Ainda é muito menos que os 739 bilhões e 4,8% do PIB dos EUA, mas
as projeções de The Economist sugerem que a China deve superar os EUA em PIB real em 2016, em PIB nominal por volta de 2018 e em gastos militares em 2025.
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