O desembargador Antonio Carlos Malheiros, responsável pela área de
Infância e Juventude do TJ-SP, desenvolvia um trabalho com crianças e
jovens na Cracolândia, acompanhado de representantes do Ministério
Público e da Corregedoria de Justiça.
A finalidade era re-integrá-los à família, oferecer uma oportunidade de tratamento, regularizar seus documentos.
Malheiros
conta que uma das situações mais chocantes que viveu foi quando
perguntou ao Edson, um corretor de seguros, viciado, se tinha
documentos.
Edson respondeu:
Documento eu tenho. O que não tenho é identidade.
O trabalho de Malheiros foi atropelado pelos porretes da Polícia Militar.
(Por que “Militar” e, não, Polícia Civil, ele se pergunta ?)
Atropelado, provisoriamente, ele diz, porque pretende voltar ao trabalho, agora, não nas ruas, mas nos hospitais.
No programa Entrevista Record desta segunda feira – clique aqui para ler
“Crack – Maria do Rosário quer fazer parceira com o Governo de São
Paulo” – Malheiros deu um depoimento igualmente assustador: ele acredita
que os moradores de São Paulo estão pouco “se lixando” para os
viciados.
Desde que as ruas fiquem “limpas”, não interessa saber o que foi feito deles.
“Eu pago os meus impostos, …”
Se eles serão sanitariamente expulsos da rua, onde construirei meus apartamentos com piscina e home theater, “lixem-se”…
Deve
ser por isso, amigo navegante, que os candidatos tucanos a prefeito,
segundo a Folha (*), na pág. A8, resolveram subir na garupa da
cracolândia e acusar o PT de criar o problema.
(Como diz o Mino Carta, a elite de São Paulo é a mais atrasada do país.)
A Folha, na primeira página, também dá notícia de um primeiro indício de confronto entre policiais e viciados.
Será
uma contribuição de São Paulo à história da Saúde Pública do Mundo
Ocidental: “Grupo reage a abordagem e ataca policiais na cracolândia”.
A
Organização Mundial de Saúde deve vir, rápido, a São Paulo, aprender
como se combate uma crise de Saúde Pública a partir do consumo de
drogas.
Com porrete !
E não é de hoje.
É o que demonstra Vladimir Safatle, em artigo na pág. 2 da Folha: “Alckmin parece crer no poder de cura do porrete”:
O governador de São Paulo parece
ser um daqueles que rezam pelas virtudes curativas do porrete da
polícia. Não é de hoje que ele expõe a sociedade às “ações enérgicas das
forças da ordem”, mesmo que a eficácia de tais ações muitas vezes seja
próxima de zero.
Há anos, sua polícia
envolveu-se em uma operação para exterminar líderes do PCC, isso no caso
conhecido como “Castelinho”. “Estamos definitivamente livres do PCC”,
afirmava solenemente o secretário da Segurança. Anos depois, o mesmo PCC
parou São Paulo em uma das mais impressionantes demonstrações de força
do crime organizado.
Mais ou menos nessa época,
militantes de direitos humanos se mobilizaram para exigir o afastamento
de membros da polícia acusados de praticar tortura na ditadura.
Expressiva maioria dessas demandas permaneceu letra morta.
Só nos anos de 2011 e 2012
vimos mais dois exemplos patéticos de atuação de uma polícia que sempre
gostou de confundir segurança com demonstração histérica de força. A
primeira ocorreu na USP.
Após a intervenção policial no
desalojamento de estudantes que invadiram a reitoria, cresceram
denúncias de maus-tratos praticados por policiais.
O último capítulo foi a recente
e inacreditável cena de um policial com arma em punho ameaçando um
estudante: prova cabal do despreparo de uma corporação acostumada a
atirar primeiro e pensar depois. A sociedade deveria ler com mais calma
os estudos que se avolumam nas universidades sobre violência policial.
Agora, fomos obrigados a assistir a uma incrível intervenção na chamada cracolândia.
Nada adianta a maioria dos
profissionais de saúde mental insistir no absurdo que significa tratar
uma questão de saúde pública como um problema de segurança. Nada adianta
lembrar que a maioria das pessoas nessa região não são traficantes.
São, na verdade, usuários, que devem ser tratados não a bala, mas em
leitos de hospital. Afinal, há uma parcela da população que se excita
quando vê a polícia “impondo a ordem”, por mais teatral e ineficaz que
seja tal imposição. Para tal parcela, a polícia é um fetiche que serve
para embalar o sonho de uma sociedade de condomínio fechado.
Se tais pessoas, ao menos, se
lembrassem de Philippe Pinel, o pai da psiquiatria moderna, talvez elas
entendessem o valor nulo de tais ações policiais, assim como da defesa
de políticas de “internação compulsória” de viciados.
Aquele que é vítima de
sofrimento psíquico (e a drogadição é um deles) só será curado quando o
terapeuta for capaz de criar uma aliança com a dimensão da vontade que
luta por se conservar como autônoma. Não será à base de balas e
internação forçada que tal aliança se construirá.
VLADIMIR SAFATLE
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