quinta-feira, 7 de julho de 2011

O desabafo do padre Júlio Lancellotti

O desabafo do padre Júlio Lancellotti

Em entrevista, o padre que foi acusado de pedofilia revela seu drama e sua mágoa com a imprensa

Luiz Cesar Faro e Rodrigo de Almeida, da revista Inteligência (material gentilmente cedido ao Brasil 247)
 
Misericórdia aos algozes que mataram brutalmente 6 milhões de judeus? Compaixão, aos torturadores que tiraram a vida ou removeram a dignidade do corpo e da alma de muitos que ousaram lutar contra as ditaduras? Perdão aos estupradores de crianças e aos pederastas que abusam dos meninos? Renúncia, sem sofrimento, à condenação dos culpados? Feito deuses terrenos, promovemos a remissão dos pecados e seguimos adiante, resolutos, como se o mal não mais houvesse? Há malefício ou crime hediondo que não seja redimido pelo perdão de homens e mulheres? Com o perdão ou o seu avesso, conviveremos com a culpa ou a penitência, se não a religiosa, mas no mínimo a da consciência? Encarar o gesto como bondade ou como patologia? Enfim, existem os imperdoáveis? À inquietude de tais perguntas, eis o convite à conversa feito ao Padre Júlio Lancellotti, sacerdote católico, formado em pedagogia e teologia, membro da Pastoral da Menor da Arquidiocese de São Paulo, Vigário Episcopal do povo de rua, pároco da pequena Igreja São Miguel Arcanjo, na Mooca, Zona Leste de São Paulo. Ele próprio um potencial porta-voz daqueles que podem se declarar como impossibilitados de conceder o perdão a seus algozes – em 2007, Lancellotti percorreu seu calvário, vítima de uma insidiosa campanha de difamação e extorsão, ao ser envolvido injustamente numa acusação de pedofilia. Engano puro. Na entrevista a seguir, ele explica, defende e justifica o perdão. Uma forma de justiça espiritual, para livrar-nos do mal, amém, em que a bondade substitui a vingança e a memória supera o esquecimento.
O perdão dos grandes delitos, das barbáries, a capacidade de perdoar a tudo e a todos não seria uma anormalidade psicológica?
Oscar Wilde dizia que é fácil falar do perdão até que você tenha de perdoar. Pensemos: o Holocausto tem perdão? Os genocídios cometidos na América contra nações indígenas têm perdão? O que significa perdoar esses crimes? O papa João Paulo II, em 2000, ano santo do milênio, fez vários pedidos de perdão. Eu lhes digo: perdoar não é esquecer. Perdoar é lembrar. Muitas pessoas me dizem: “Padre, eu não esqueço o que fizeram de mim”. Eu respondo: “Claro, você não esquece porque não sofre de amnésia”. Como não esquecemos momentos como o Holocausto. Perdoar não é esquecer, repito, perdoar é lembrar para que isso não aconteça mais. Perdoar o Holocausto não significa dizer, portanto, que não faz mal, que tudo está bem. Não, significa dizer que nós lembramos e que não queremos sua repetição.
Mas o perdão não comporta algum tipo de absolvição?
A absolvição não significa a possibilidade de se cometer novamente aquele erro. Por exemplo, o que significa perdoar um aborto? Significa que a pessoa não vai mais cometê-lo. Como perdoar o Holocausto significa dizer que não permitiremos a reprodução desse mal. A absolvição é isentar as pessoas da responsabilidade. O perdão é absolvição se leva à irresponsabilidade. Mas perdoar não é tornar a ofensa irresponsável. “Não faz mal que você cortou meu braço, eu lhe perdoo”. Ou: “Não faz mal que você tenha destruído minha vida”. Longe disso. O perdão significa tirar da mão de quem ofende o instrumento da ofensa. O que é perdoar um ditador como foi Augusto Pinochet no Chile? Ou Anastasio Somoza na Nicarágua? Ou Jorge Videla na Argentina? Ou aqueles que torturaram na ditadura militar brasileira? Perdoar aí é justamente não esquecer, é resistir, é responsabilizar, é não produzir um mal igual. Não é absolver.
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