Em entrevista, o padre que foi acusado de pedofilia revela seu drama e sua mágoa com a imprensa
Luiz Cesar Faro e Rodrigo de Almeida, da revista Inteligência (material gentilmente cedido ao Brasil 247)O perdão dos grandes delitos, das barbáries, a capacidade de perdoar a tudo e a todos não seria uma anormalidade psicológica?
Oscar Wilde dizia que é fácil falar do perdão até que você tenha de perdoar. Pensemos: o Holocausto tem perdão? Os genocídios cometidos na América contra nações indígenas têm perdão? O que significa perdoar esses crimes? O papa João Paulo II, em 2000, ano santo do milênio, fez vários pedidos de perdão. Eu lhes digo: perdoar não é esquecer. Perdoar é lembrar. Muitas pessoas me dizem: “Padre, eu não esqueço o que fizeram de mim”. Eu respondo: “Claro, você não esquece porque não sofre de amnésia”. Como não esquecemos momentos como o Holocausto. Perdoar não é esquecer, repito, perdoar é lembrar para que isso não aconteça mais. Perdoar o Holocausto não significa dizer, portanto, que não faz mal, que tudo está bem. Não, significa dizer que nós lembramos e que não queremos sua repetição.
Mas o perdão não comporta algum tipo de absolvição?
A absolvição não significa a possibilidade de se cometer novamente aquele erro. Por exemplo, o que significa perdoar um aborto? Significa que a pessoa não vai mais cometê-lo. Como perdoar o Holocausto significa dizer que não permitiremos a reprodução desse mal. A absolvição é isentar as pessoas da responsabilidade. O perdão é absolvição se leva à irresponsabilidade. Mas perdoar não é tornar a ofensa irresponsável. “Não faz mal que você cortou meu braço, eu lhe perdoo”. Ou: “Não faz mal que você tenha destruído minha vida”. Longe disso. O perdão significa tirar da mão de quem ofende o instrumento da ofensa. O que é perdoar um ditador como foi Augusto Pinochet no Chile? Ou Anastasio Somoza na Nicarágua? Ou Jorge Videla na Argentina? Ou aqueles que torturaram na ditadura militar brasileira? Perdoar aí é justamente não esquecer, é resistir, é responsabilizar, é não produzir um mal igual. Não é absolver.
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