segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A curta temporada de caça a Pochmann

Desta vez, o factoide contra o diretor do Ipea durou menos de 48 horas
Marcio Pochmann está acostumado. Desde que assumiu o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), em setembro de 2007, querem servir sua cabeça em uma bandeja. Há interesses variados no grupo de seus detratores. Um dos mais fortes lobbies congrega funcionários que dão expediente no escritório do instituto no Rio de Janeiro, pesquisadores antes prestigiados no período de Fernando Henrique Cardoso e hoje fora do centro das decisões – e dos holofotes – da fundação. Neste núcleo de insatisfeitos está a turma que alimenta o jornal O Globo, publicação sistematicamente engajada na campanha contra o economista paulista.
A temporada de caça a Pochmann foi reiniciada, mas teve curta duração. No domingo 13 e na segunda 14, respectivamente, os jornais Correio Braziliense e O Estado de S. Paulo noticiaram a suposta decisão do ministro Moreira Franco de demiti-lo. O Ipea é subordinado à Secretaria de Assuntos Estratégicos comandada pelo peemedebista carioca. No Palácio do Planalto, a informação foi tratada pelo seu valor de face: um mero factoide. Um integrante do staff de Dilma Rousseff negou a CartaCapital qualquer intenção de mudar o comando da fundação. A presidenta está satisfeita com o trabalho de Pochmann. Na terça 15, o economista reuniu-se com Moreira Franco. Segundo o ministro relatou ao subordinado, tudo não passou de um “mal-entendido”. Os dois discutiram alterações na diretoria do Ipea, todas relacionadas a questões meramente administrativas – um dos diretores, por exemplo, foi requisitado pelo Tesouro Nacional e outro pela Secretaria de Igualdade Racial.
Tanto o Correio quanto o Estadão voltaram a repetir as teses dos críticos de Pochmann. O economista é acusado de “aparelhar” a instituição e de transformá-la em um apêndice ideológico da máquina de propaganda governista – cujo único objetivo seria respaldar as políticas econômicas e sociais adotadas pela administração petista nos últimos oito anos.
A direção do Ipea argumenta o contrário. As mudanças visaram suprir o Estado de estudos e análises de longo prazo e que atendam aos objetivos da criação da fundação em 1965: “Produzir, articular e disseminar conhecimento para aperfeiçoar- as políticas públicas”. Sob Pochmann, ninguém pode negar, houve um fortalecimento do instituto, com novas contratações por concurso público e maior diversificação dos assuntos analisados. Economistas e jornalistas razoavelmente independentes e que compreenderam o significado da mais recente crise mundial (o setor privado não é, por princípio, mais competente ou ético) podem argumentar que a cobertura da mídia, também neste caso, padece de miopia. Seria a orientação atual do Ipea “ideológica” e a anterior, quando sobravam estudos a defender as privatizações e reformas neoliberais da previdência, “técnica” e “natural”, talvez “divina”?
Desta feita, outro ponto chama a atenção. Em meio às velhas críticas ao “aparelhamento” surgiu uma nova acusação. Pochmann, por perseguição, teria barrado a transferência de funcionários para outros setores do governo. Mas uma regra no Ipea – bem como no serviço público em geral – impede que servidores com menos de três anos no cargo possam ser requisitados por ministérios, autarquias ou empresas públicas. Um caso, em especial, provocou certo rebuliço. Ph.D. em Economia, Sergio Gobetti havia sido convidado para trabalhar no Ministério da Fazenda, mas sua transferência foi negada. Além de economista, Gobetti é jornalista. Antes de ingressar no Ipea, trabalhou em O Estado de S. Paulo e no Correio Braziliense. Coincidência ou não, os dois jornais tentaram derrubar Pochmann.
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