Por Renato Rovai
O complexo de cachorro vira-latas de certos setores da mídia nacional é tamanho que o bate-boca entre o rei da Espanha e o presidente Hugo Chávez passou a ser tratado como o dia em que a terra parou. Algo sensacional: um rei europeu mandou o presidente de uma republiqueta latina calar a boca.
Acho que Chávez é excessivo em diversos momentos. Não acho que aquele era o momento mais apropriado para registrar que Aznar era um fascista, coisa que muitos espanhóis inteligentes que conheço não desconhecem, mas daí vir a transformar o rei Espanhol em nosso rei é demais da conta.
Até porque, na essência, Chávez tinha razão. Só Aznar e Bush que reconheceram o governo de Pedro Carmona, o breve, antes mesmo que o galo houvesse cantado três vezes. O golpista Carmona ficou 47 horas na presidência, tempo suficiente para Aznar saudá-lo como presidente legítimo.
Além disso, o rei de Espanha é também nome de um prêmio, “Rey de España de Periodismo”. E esse prêmio foi dado para a maior mentira midiática dos últimos anos.
No meu livro, Midiático Poder, conto a história em detalhes. Um vídeo-montagem realizado pela Venevisión, de Gustavo Cisneros, rodou o mundo depois do 11 de abril de 2002 mostrando chavistas atirando contra uma passeata da oposição. A foto, inclusive, está na capa do livro. São dez minutos de uma matéria que em tese teria sido realizado ao vivo, com um locutor narrando a saga. O nome da farsa é: “O massacre do Centro de Caracas”.
Outras imagens, produzidas por cinegrafistas amadores e pela câmera fotográfica de Maurice Lemoine, do Le Monde Diplomatique, demonstraram que tudo era uma montagem. Que não havia passeata alguma sobre a ponte, que aquelas pessoas que atiravam defendiam-se de tiros de agentes da Polícia Metropolitana, que à época estava sob o controle da oposição a Chávez, que governava Caracas.
Mais ainda: investigações posteriores comprovaram também que a transmissão não havia sido realizada ao vivo (o que o próprio cinegrafista da Venevisión relatou em juízo) e que o material havia passado por edição e montagem.
Em Midiático Poder também apresento a história de Otto Neustald, da CNN, que conta que havia participado de uma gravação com um grupo de militares. Neustald diz que ainda no dia 10 de abril eles gravavam a mensagem que foi ao ar pedindo a renúncia de Chávez logo após a transmissão dessa matéria pela Venevisión.
Foi também essa matéria da Venevisión que fez o Jornal Nacional daquele dia dedicar quase que uma edição inteira ao que se passava na Venezuela, tentando convencer o povo brasileiro do risco que a candidatura de Lula (isso foi em 2002) poderia trazer ao Brasil.
Foi também esse vídeo que fez Arnaldo Jabor comemorar com uma banana na mão o fato de Chávez ter sido expulso pelo povo da presidência da República e em seu lugar ter assumido um “civil democrata”, aquele, lembram, o Carmona. Para Jabor a América Latina estava se desbananizando com o golpe contra Chávez.
Esse vídeo, também fez com que Veja e Época saboreassem em suas capas “a queda do presidente fanfarrão”.
Hoje se sabe que aquela reportagem em sua essência foi uma farsa. Que os tiros aconteceram, mas em contexto absolutamente diferente do narrado. E que ele não foi produzido ao vivo, algo assumido pelo próprio cinegrafista que o realizou. Mas isso não impediu de ganhar o prêmio Rey de España de Periodismo.
E isso talvez explique o chilique do rei. Ele não suporta Chávez e nem pode suportar. Porque se tivesse um pingo de dignidade teria de lhe pedir desculpas por conta de dar nome a um prêmio que foi entregue a uma das maiores farsas jornalísticas dos últimos tempos.
Talvez também por isso um setor da mídia tupiniquim não suporte Chávez. Porque como o rei da Espanha ela participou daquele engodo e não tem a dignidade de pedir desculpas aos seus leitores e espectadores, quanto menos a Chávez e ao povo venezuelano.
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