
por Eliara Santana*, especial para o Viomundo
No momento em que o jornalista Glenn Greenwald, ganhador em 2014 do prêmio Pulitzer de Jornalismo (o mais importante no mundo), e o site The Intercepttrazem à tona mensagens e conversas entre o procurador Deltan Dallagnol e o então juiz Sergio Moro, o Jornal Nacional aposta na criação de um fato “novo” para consolidar uma narrativa de sustentação à Lava Jato.
A partir de 11 de junho, o que interessa ao JN é:
“A Polícia Federal suspeita que a invasão a celulares de Moro e procuradores foi uma ação orquestrada”.
Portanto, o acontecimento inicial (divulgação das conversas comprometedoras) deixa de ser um fato relevante para o jornal, que recria os acontecimentos como convém.
Na criação desse roteiro, há elementos marcantes como a desconstrução do oponente e criação de um inimigo comum (Glenn e a ação para atacar a Lava Jato) e a ressignificação de acontecimentos (saem conversas comprometedoras e entra ação orquestrada de hackers).
Essas não são estratégias discursivas inéditas, nem exclusivas de alguns meios.
Mas são estratégias discursivas brilhantemente utilizadas pelo Jornal Nacional e pela Rede Globo para produzir uma narrativa.
O que significa, quase sempre, dar novos significados a acontecimentos já relatados, inserir personagens e colocar tudo isso em um novo quadro para o espectador (vamos mudar sem que você perceba que mudamos, como se esse fosse o curso natural da notícia…).
E nesse processo, há estratégias de organização do discurso com a estruturação de modos de dizer que direcionam o espectador para determinada produção de sentidos.
Simbolicamente, é preciso estruturar essa nova “realidade” criada para que dispute a opinião pública e se imponha de fato como nova narrativa. Assim, como na construção de um roteiro, temos alguns passos que se organizam discursivamente para consolidar essa narrativa:
1.A desconstrução de um acontecimento. Um novo fato toma a cena
Primeiro Momento: Em 10 de junho, o primeiro dia logo após o vazamento das conversas, a edição do JN é pulverizada, e o enquadramento é o da ilegalidade na obtenção das informações.
Essa é a ideia que precisa se consolidar para o público, para que ele, por “conta própria”, se interesse mais por isso do que pelo conteúdo em si.
Quem apresenta a ideia ao espectador é uma voz externa de autoridade, do STF, para reforçar a assertiva (não é o jornal quem está dizendo, é uma voz autorizada a dizê-lo, uma voz da Justiça).
O ministro Gilmar Mendes levanta a suspeita da ilegalidade e a condena, e o ministro Barroso reforça o papel da Lava Jato, dizendo que ela é essencial e afirmando que a corrupção sempre existiu no Brasil.
Há um espaço grande para Barroso se expressar, e ele é a voz que vai cumprir o papel de “desqualificar” o conteúdo divulgado, dizendo que sente dificuldade em entender a “euforia que há em torno disso, porque todo muno sabe, no caso da Lava Jato, que as diretorias da Petrobras foram loteadas entre partidos, é um fato demonstrado”.
Marca-se também ali o terreno da corrupção no Brasil – o velho repertório tantas vezes utilizados.
Para fechar o ciclo do novo fato, mostra-se o apoio a Sergio Moro com o destaque dado à entrega da medalha pelo presidente da República.
Outro elemento na costrução é a marcação de certas palavras ou expressões, como o sintagma “ilegal”, que é repetido ao longo das matérias, além de “invasão”, “atentado”, “ataque”.
Elementos comprobatórios da tese de “invasão” são mostrados, como gráficos, e a PGR Dodge confirma gravidade do “atentado”.
Entra outra voz de autoridade, a do general Villas Bôas, que cumpre a função de dimensionar a gravidade do fato em si e de lembrar a corrupção que sempre existiu no Brasil e o papel da Lava Jato. Portanto, esse elemento é novamente trazido à memória do espectador.
Segundo momento (as edições até 13 de junho): para consolidar o roteiro e o fato ressignificado, é preciso adicionar elementos interessantes à trama, portanto, amplia-se a ideia de um ataque dimensionando esse fator e reafirmando se tratar de uma “invasão” muito grande, que atinge outros atores. Diz a abertura:
“As investigações iniciais mostraram que o ataque de hackers a autoridades ligadas à Operação foi muito mais amplo do que se supunha e atingiu também políticos e um grupo de integrantes do Conselho Nacional do Ministério Público”.
Além disso, um novo e importante personagem é inserido na trama: o hacker (palavra pronunciada sem aportuguesamento no JN, pronúncia perfeita em inglês).
Entra então a matéria para mostrar a gravidade da situação, e o procurador José Rovalim Cavalcanti é a fonte a mostrar o absurdo do celular hackeado. Sobretudo para mostrar que não se trata de um hacker qualquer, é um hacker que invade o celular e deixa mensagens se identificando para que se confirme o ato ilegal, além de querer dialogar com os hackeados.
As explicações são muitas para dizer que se trata de uma “ação orquestrada” e muito ampla, portanto, perigosa.
O conteúdo das conversas divulgas pelo The Intercept, neste momento, são ignoradas.
Vale lembrar que nas matérias já divulgadas pelo The Intercept e nas entrevistas concedidas pelos jornalistas envolvidos, não há menção a essa figura do hacker. Mas ele existe com certeza no JN.
Assim diz o hacker:

Como vocês podem ver pela imagem divulgada pelo JN, trata-se de um hacker isentão, que não tem
qualquer ideologia, portanto, é “confiável”.

É um hacker que tem português corretíssimo – usa acento e vírgula como ninguém no mundo digital (e no mundo presencial também) -, sempre se apresenta, é educado e antecipa que os procuradores enfrentarão muitos momentos difíceis. Ele também ressalta que só encontrou justiça na Lava Jato. É um hacker consciente também.
Há menção à Constituição, cujo artigo é lido na matéria, para confirmar que o hackeamento de informações é crime no Brasil. E há muitas explicaçoes e quadros apra mostrar como o hacker conseguiu invadir o sistema.
Na edição do dia 13/06, após liberação da conversa integral dos trechos já divulgados, o JNdá mais espaço a essa reprodução, citando alguns trechos completos, mas sempre pontuando não haver qualquer ilegalidade neles. Há espaço também para Moro reafirmar que não há ilegalidade. A ideia inicial do roteiro ainda se mantém.
2.O oponente (inimigo): Esse é outro passo importante para se construir e consolidar uma narrativa — é preciso ter alguém para ser o inimigo na trama, e esse passa a ser o jornalista Glenn Greenwald.
O significado dele no cenário jornalístico é completamente diminuído, e o JN não faz referência ao prêmio Pulitzer que ele ganhou e muito menos ao caso Snowden.
Obviamente, é preciso tirar dele a importância na trama para esvaziar também as denúncias que ele apresenta de forma muito competente. É preciso desconstruir esse “oponente” e mostrar que ele “flertou” com a ilegalidade ao usar o trabalho de um hacker, portanto, o que ele mostra não tem valor.
3.E o fechamento: É preciso consolidar para o público a nova narrativa, com os novos personagens, para trabalhar a partir desse fato consumado:
houve um ataque de hacker de grandes proporções que envolveu não apenas os procuradores da Lava Jato, mas membros do Ministério Público e políticos. Esse fato coloca em risco investigações importantes no Brasil. O que o site Intercept traz é baseado nesse grande esquema, portanto, não deve interessar ao Brasil.
Esse é o jogo que está colocado em cena para convencer a opinião pública até aqui.
Pelo movimento dos subterrâneos, já sabemos que ela, apesar da construção de personagens curiosos (um hacker carente que dialoga com o hackeado), tem certa efetividade por um momento.
No entanto, há muito ainda a acontecer, e pela nota já divulgada pela Globo, lançando dúvidas sobre a ética e a integridade do jornalista Glenn Greenwald, a expectativa é de que há muita coisa a ser revelada.
E o hacker carente não vai dar conta do recado. Aguardemos os próximos e empolgantes capítulos da novela.
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