terça-feira, 22 de março de 2016

O xadrez dos impasses no jogo do impeachment




A segunda-feira foi de preparativos, com os dois lados acumulando forças.
O cenário central que traçamos contempla os seguintes movimentos:
Do governo - Lula avançando na remontagem do pacto político, juntando a antiga base de
apoio, tendo o presidente do Senado Renan Calheiros como fiel da balança.
Da oposição - Reorganização do pacto PMDB-PSDB em torno do vice-presidente Michel
Temer.
Batalha de Stalingrado - daqui até a votação do impeachment pela Câmara, acirramento
das disputas
Conforme previmos, os lances principais de curto prazo foram jogados:
  1. Impedir a atuação de Lula através de ações judiciais junto ao Supremo Tribunal Federal (STF).
  2. Acelerar as ações contra Renan Calheiros.
Do lado de Lula, houve a manifestação dos juristas subscrevendo um Habeas corpus (HC) 
dirigido ao STF. E Lula se lançando à luta sem necessariamente dispor do cargo de Ministro-
Chefe da Casa Civil.
Ontem ocorreram os seguintes episódios:

Temer

O Senador José Serra tentou se valer da parceria com jornais para se apresentar como 
conselheiro, avalista e coordenador de um futuro governo Michel Temer.
Foi uma entrevista que trouxe apenas uma informação importante: Serra não é jogador 
central, no máximo é um estrategista dos porões Quem manda nos bastidores jamais se
apresenta no palco. Foi imediatamente rechaçado por Temer, consolidando a convicção de
que, na eventualidade de um acordo PSDB-PMDB, Serra irá para um cargo secundário.

STF

O Supremo Tribunal Federal mais uma vez tergiversou em relação ao tema Lula. Sorteado 
relator da medida contra a decisão do seu colega Gilmar Mendes, o Ministro Edson Fachin
refugou e declarou-se impedido por ser padrinho de batismo do filho de um dos signatários
do documento. Novo sorteio, a bola caiu com a Ministra Rosa Weber. Mesmo tendo sido
assessorada pelo juiz Sérgio Moro, no "mensalão", Weber não se declarou suspeita.
Agora, está sob fogo cruzado.
Do lado da oposição, o uso óbvio das conversas gravadas e divulgadas irregularmente por 
Sérgio Moro, especialmente o pequeno trecho em que um dos políticos sugere a outro que
Dilma converse com Rosa.
Do lado dos pró-Lula, a disseminação de ataques mencionando o filho que trabalha na 
Globo, o parentesco com a esposa de Aécio e a assessoria de Moro no “mensalão”. São tão
desastrados que parecem até planejados pelos golpistas. Rosa Weber é considerada
unanimemente uma Ministra séria. Suas vulnerabilidades não se prendem ao caráter, mas
à fragilidade emocional  e jurídica nos grandes embates jurídicos, especialmente com 
implicações políticas como a atual. Os ataques apenas atiçarão mais as idiossincrasias no 
STF.
Não se entende que uma estilingada de cá legítima bombardeio e fogo de artilharia de lá.
Ainda há que se aguardar a posição do STF. Até agora, não há nenhum sinal de que 
entrará mais firmemente na contenção de abusos.

Pressões sobre parlamentares

Grupos como o “Vem para a rua” estão trabalhando a rede com o máximo de 
profissionalismo. Montaram sites com a ficha de cada deputado, sua posição em relação ao
impeachment e dados pessoais, sobre como e onde constrangê-los, além do uso abundante
de robôs, especialmente no Twitter, e de sites de disseminação de notícias falsas. E, óbvio,
com a retaguarda do maior dos perfis das redes sociais: os veículos de comunicação.
Do lado dos lulistas, há também o uso de robôs, de sites com notícias falsas. Mas com 
eficácia reduzida.
Quando menciono " lulistas", não se pense em uma ação estruturada com um comando
central, mas em ações dispersas por parte de simpatizantes.

Momentos decisivos

Nos cenários anteriores, alertamos para o óbvio: os próximos dias serão prenhes de 
grandes jogadas midiáticas e policiais. Podem aguardar sentados novas bombas saindo dos
porões diretamente para o Jornal Nacional.
Por outro lado, aumenta a reação ao golpe. Após as grandes manifestações do último dia 
18, haverá provavelmente manifestações maiores no dia 31. Além disso, ampliou o
posicionamento de artistas, intelectuais e personalidades em geral contra o clima de
fascismo e contra o golpe.
Há saídas convencionais para a crise: a derrubada do impeachment e a recomposição do 
governo Dilma; ou o  impeachment e a entrada de Michel Temer.
Comece a trabalhar com uma terceira hipótese, ensaiada por alguns setores anti-Lula mais 
preocupados com a institucionalidade a partir das seguintes premissas:
  1. O alvo sempre foi Lula. É Lula que une as esquerdas e pode ameaçar as eleições de 2018.
  2. A queda de Dilma escâncara o golpismo perante o mundo jurídico e a opinião pública mundial. Não haverá como conferir legitimidade ao governo que assumir.
  3. Além disso, ampliará de forma incontrolável o racha, o ódio e a violência.
A saída – segundo esse raciocínio – seria preservar o governo Dilma à custa do sacrifício 
político de Lula.
Antes, terão que combinar com os russos. Mas tenho convicção de que os próximos passos 
do jogo serão nessa direção. É por aí que deverão ser estruturadas as próximas ações anti-
golpe.

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