quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Lula à CUT: “é política na cabeça”



Por: Fernando Brito

“Está faltando política em nossa ação sindical. O economicismo só não é suficiente”.A frase, que
abre a cobertura da própria CUT sobre a presença de Lula na manhã de hoje na reunião 
da Executiva Nacional da Central, em São Paulo – que a grande impresna não cobriu, embora noticie 
até chá com bolinhos de Fernando Henrique Cardoso – é ao mesmo tempo um apelo e uma
(auto)crítica ao comportamento dos petistas da entidade (e não só eles) como serviria como uma luva 
para os que estão no governo.
“O movimento sindical tem de sair do chão de fábrica, do chão das lojas, do chão dos locais de 
trabalho, pois o limite de representatividade passa do chão”, disse.
Como poderia dizer:
“Os dirigentes públicos precisam sair dos gabinetes, das reuniões repetitivas e das solenidades, pois o 
exercício do governo vai além das coberturas e salões e passa pelo chão”.”
Lula reclamou do discurso antipolítica que domina a mídia.
“Hoje me espanto quando vou na porta de fábrica e vejo muito jovem que quer fazer faculdade, não 
quer ser mais apenas um peão. Esse jovem sabe qual foi o papel do pai e da mãe dele? Ele sabe qual 
foi e qual é o papel da CUT?”, questionou, ao lembrar que a construção das condições políticas e 
econômicas de vida custou muito sacrifício.
Mas quem é que disse isso a ele, presidente? Se o partido no Governo e o governo do Partido dos
Trabalhadores não dizem e se limitam a registrar a ascensão da nova classe média como resultado de 
políticas públicas “republicanas” e de uma “eficiência do governo”, não como o resultado de lutas 
sociais históricas, do enfrentamento de privilégios e de uma trajetória das lutas socais que não pode ser 
interrompida, quem iria dizer isso aos jovens?
“Outro dia ouvi um amigo me dizer que o filho dele se formou em Jornalismo com a ajuda do Pro-Uni, 
mas que não vota no PT e é contra o Bolsa Família”, disse Lula.
Pois é, presidente, este é o resultado da despolitização. O guri, de tanto ouvir que isso é um direito dele 
– e é, embora tenha sido sempre negado – e não é dos outros, também, porque ele conquistou o Pro-
Uni com sua nota no Enem, não o governo popular que financia seus estudos.
Outra fala interessante do ex-presidente foi a em que disse que governar é mais complexo que colocar 
uma placa num canteiro de obras onde uma placa dizendo às pessoas: “Desculpe, governo 
trabalhando”.
Esta, Lula, é a versão do sindicalismo economicista que o senhor pede para que a CUT não praticar, 
exclusivamente.
Eu vivi dois governos com Brizola. No primeiro, mal sabíamos como lidar com a máquina, mas 
marcamos nossa opção política e só não elegemos Darcy porque nem Cristo resitiria ao golpe do
Cruzado. Mas em 89, a votação de Brizola aqui não deixa dúvidas, não é? Do segundo, muito mais 
eficiente em matéria de administração e obras, saímos estropiados, porque perdemos a mensagem 
política.
“Qual a mensagem? Qual a ideia-força para motivar e entusiasmar as pessoas?”, perguntou Lula aos 
sindicalistas.
Eu me atreveria a responder que são “povo” e “Brasil”, que somados dão “justiça”.
A “turma da bufunfa”, em relação a estas palavras, só fala mal.
A mídia, idem.
E o governo, que fala bem, só fala com a turma da bufunfa e seus caudatários na classe média, que não 
estão nem aí para “povo” e Brasil.
Ou então, através de “institucionais” que – para serem republicanos com luvas de pelica e rendas – não 
emocionam, não conceituam, não mobilizam.
Por que precisamos esperar até as eleições para ver que pessoas se beneficiaram do Pronatec, ou do
Bolsa-Família, ou das cisternas no sertão, ou dos mais médicos, ou de tanta coisa?
Por que seu partido, vítima preferencial do descrédito dos políticos, não se dedicou a mostrar que são 
os tucanos, pelas mãos de Gilmar Mendes, que barram o fim desta ignomínia de financiamento 
empresarial dos políticos nas eleições, que acaba levando muita gente aos Paulo Roberto Costa para ter 
chance de eleger-se?
Dilma, se for sábia, saberá que não pode governar sem política, embora tenha de governar sem 
partidarismos e com acordos.
Jamais, porém, sem a origem que tem: a de continuidade do projeto inaugurado por Lula.
O PT, se quiser sobreviver, deveria saber que tem de fazer política sem governo, embora deva estar 
dentro e solidário ao governo que, sob sua legenda, triunfou nas urnas.
Até porque o PT tem um líder político que não precisa estar no governo todo dia para estar, no 
cotidiano, com os pés bem plantados no chão.
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