sábado, 19 de janeiro de 2019

Indígenas denunciam invasão de madeireiros e loteamento na Terra Indígena Arariboia


Madeira encontrada pelos Guajajara na expedição de monitoramento do território realizada 
na primeira semana de 2019. Foto: Guardiões da Floresta Guajajara
POR TIAGO MIOTTO, DA ASCOM/CIMI
Na Terra Indígena (TI) Arariboia, no Maranhão, a situação de recorrentes invasões madeireiras vem
se agravando “mais a cada dia”, conforme relata Tainaky Tenetehar, um dos coordenadores dos
Guardiões da Floresta daquela terra indígena. O grupo foi criado pelos Guajajara para fazer a
fiscalização e o monitoramento autônomos do território, em função da insuficiência do Estado em
coibir as invasões.
Além das incursões ilegais para retirada de madeira, já identificadas em 2019, os indígenas também
denunciam a tentativa de estabelecimento de lotes dentro da terra indígena, que vêm ocorrendo desde
meados do ano passado.
Na primeira semana de 2019, Tainaky relata que os Guardiões já fizeram uma ação de retirada de
madeireiros do interior da terra indígena, próximo à região das aldeias Arariboia, Formosa e
Buritiana. Os indígenas encontraram pedaços de madeira serrada, árvores cortadas, caminhões,
tratores e pessoas trabalhando na limpeza das estacas de madeira para transportá-las.
Em um áudio gravado pelos Guajajara, uma das pessoas encontradas no interior da terra indígena
reconhece receber alimentação e sete reais por cada estaca de madeira que limpa para madeireiros do
município de Grajaú, que faz limite com a terra indígena. A limpeza das estacas é a retirada da casca
das toras derrubadas, para evitar que se decomponham.
“Além de estar infringindo a lei, vocês estão destruindo a nossa vida. E estão destruindo a vida de
vocês também. Se não fosse essa terra aqui, essas árvores, não estava chovendo para ninguém, não
estava tendo caça para ninguém”, afirma o indígena ao invasor.
“Falamos que era proibido, que nós não queremos destruição na nossa terra. Dissemos para eles
saírem. Eles foram embora, só que agora já voltaram, dá para ouvir aqui da aldeia o barulho dos
caminhões”


Registro de madeira derrubada no interior da TI Arariboia no início de 2019, feito pelos 
indígenas. Foto: Guardiões da Floresta Guajajara
Segundo Tainaky Tenetehar, os invasores chegaram a deixar o território depois da ação no início do 
ano, mas já retornaram e continuam retirando madeira.
“Falamos que era proibido, que nós não queremos destruição na nossa terra. Dissemos para eles
saírem. Eles foram embora, só que agora já voltaram, dá para ouvir aqui da aldeia o barulho dos
caminhões”, explica o indígena.
“A situação é muito complicada, porque nosso território é rodeado por municípios e cortado pela
estrada. Então fica fácil para eles levarem a madeira”, reflete Tainaky.
As invasões ao território e o monitoramento feito pelos Guardiões da Floresta também acabam
acirrando as situações de conflito e levando, com isso, a um grande número de assassinatos de
indígenas na região.
Somente no ano de 2016, ao menos cinco Guajajara foram assassinados na TI Arariboia. Dois deles
eram integrantes dos Guardiões da Floresta: Afonso Guajajara e Assis Guajajara. Os indígenas
também afirmam que um outro Guardião, Cantídio Guajajara, morto num acidente de moto entre o
município de Amarante do Maranhão e a terra indígena, foi assassinado, vítima de uma emboscada.
Há mais de cem aldeias do povo Guajajara espalhadas pelos 413 mil hectares da TI Arariboia, onde
também vivem no território grupos de indígenas isolados do povo Awá Guajá. A presença de
madeireiros no interior da terra indígena representa para esses grupos um risco ainda mais grave.
Para Gilderlan Rodrigues da Silva, coordenador do Cimi Regional Maranhão, a dependência que os
municípios no entorno da terra indígena têm da exploração madeireira agrava ainda mais a situação.
“Logicamente, esses madeireiros também estão aliados com o poder político dos municípios, fato
que faz com que muitas vezes eles não sejam responsabilizados por suas ações. Acaba que as
apreensões feitas não surtem os efeitos necessários e logo os caminhões estão de volta para explorar
a terra indígena”, avalia.
“Quem está loteando a terra continua lá, esperando para ver o que acontece. Se alguém tomar
providência, eles saem. O Estado precisa fazer alguma coisa, porque senão eles vão acabar tomando
toda a área”

Lotes na terra indígena
Além do roubo de madeira e da constante violência contra os indígenas, os Guajajara identificaram, 
na segunda metade do ano passado, invasores que estão buscando estabelecer lotes dentro dos limites 
da TI Arariboia.
Segundo informações dos indígenas, a invasão está ocorrendo numa região próxima ao povoado de 
Santa Luzia, no município de Arame. O povoado fica colado à terra indígena, separado dela apenas 
pela rodovia MA-006.
“Ali, na verdade, já foram assassinados quatro indígenas. Inclusive o índio mais velho da região, que 
era o Domingos Guariba, isso uns quatro ou cinco anos atrás. Ele incomodava os não índios que 
querem se apossar dali”, relata Izael Guajajara, morador da aldeia Zutiwa, distante 28 quilômetros da 
área loteada.
“No ano passado, eles atearam fogo na casa da viúva de Domingos, e ela quase foi queimada junto. 
Depois disso, eles lotearam, dividiram a área entre eles”, prossegue o indígena.
Os Guardiões Guajajara chegaram a fazer duas ações, ainda no ano passado, nas proximidades da 
área loteada. Numa delas, em outubro, gravaram um vídeo mostrando os “variantes” – que é como 
chamam as pequenas picadas abertas para marcar a divisão dos lotes – no interior da terra indígena.
Cerca de um mês depois, em outra ação nas proximidades da ocupação ilegal, encontraram mais 
invasores retirando madeira de dentro da terra indígena.
“Os invasores estão lá fazendo os variantes, demarcando o lugar para ocuparem a área. Faz quase um 
mês que vim de lá, estava essa situação. Essa invasão começou no ano passado, do meio do ano para 
cá. E continua. Eles saem por um tempo, dizem que vão embora, mas retornam”, relata Tainaky 
Tenetehar.
Segundo ele, os Guardiões não vão até o local onde os invasores estão, pois temem um confronto. A 
situação, entretanto, já foi denunciada para a Fundação Nacional do Índio (Funai).
Sílvio Santana, também Guajajara e Coordenador Regional da Funai em Imperatriz, no Maranhão, 
confirma que recebeu a denúncia de lideranças indígenas e da Coordenação Técnica Local da Funai 
em Arame, município que compreende parte da TI Arariboia.
“Segundo as lideranças, a invasão havia parado, depois de uma ação dos Guardiões naquela região. 
Mas nós estamos mandando uma equipe para averiguar e confirmar essas informações”, afirma 
Santana.
“Quem está loteando a terra continua lá, esperando para ver o que acontece. Se alguém tomar 
providência, eles saem. Senão, eles vão permanecer. O Estado precisa fazer alguma coisa, porque 
senão eles vão acabar tomando toda a área”, afirma Izael Guajajara. “Estamos preocupados, porque 
nesse governo não sabemos o que vai acontecer”.

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