segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Alvos de Bolsonaro, equipes de Ibama e Chico Mendes sofrem ataques na Amazônia


Usando um galão de gasolina, um homem ateou fogo em três das dez viaturas do órgão 
estacionadas em frente a um hotel.Atentados ocorreram durante operações de combate ao 
desmatamento ilegal
Alvo de duras críticas do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), o Ibama e o ICMBio sofreram ataques 
na Amazônia durante operações de combate ao desmatamento ilegal.
O atentado contra o Ibama aconteceu às 22h do sábado (20), na cidade de Buritis (RO), a 338 km de 
Porto Velho. Usando um galão de gasolina, um homem ateou fogo em três das dez viaturas do órgão 
estacionadas em frente a um hotel.
O fogo foi controlado por policiais, evitando que se espalhasse às demais viaturas. O suspeito do 
ataque, Edmar dos Santos Lima, foi preso e autuado por dano ao patrimônio público.
Durante a confusão, um grupo de pessoas se aglomerou diante do hotel. Algumas delas passaram a 
incentivar a queima de outras viaturas e chegaram a romper o cordão de isolamento. A polícia 
conseguiu conter um segundo ataque e prendeu um dos incentivadores, de acordo com o boletim de 
ocorrência.
A pedido do Ibama, uma unidade de elite da PM de Rondônia foi deslocada até Buritis. O órgão 
ambiental também solicitou reforço da Força Nacional. A equipe do Ibama está em Buritis para uma 
operação de combate ao desmatamento, como parte do Plano Nacional Anual de Proteção Ambiental 
(Pnapa).
É a primeira vez neste ano que o Ibama tem viaturas incendiadas. Em julho do ano passado, um 
ataque queimou oito caminhonetes no sudoeste do Pará. Os veículos estavam sendo transportados em 
um caminhão-cegonheira.
No caso do ICMBio, o incidente ocorreu na sexta-feira (19) à tarde, no município de Trairão (PA), 
situado na BR-163 e a 1.395 km a sudoeste de Belém. Trata-se do primeiro ataque ao órgão 
ambiental neste ano em todo o país.
De acordo com o relato oficial, uma equipe estava na Floresta Nacional (Flona) Itaituba 2 para 
verificar um desmatamento detectado por satélite e combater o roubo de madeira.
Enquanto isso, foi queimada uma pequena ponte na única estrada de acesso. Áudios obtidos pelo 
ICMBio mostram que a ação foi orquestrada por moradores de Bela Vista do Caracol, distrito de 
Trairão, cuja economia depende de madeira ilegal e extração de palmito.
Quando a equipe estava parada na ponte queimada, um grupo de moradores se concentrou numa 
segunda ponte, a algumas centenas de metros. Agentes do ICMBio relataram ter ouvido tiros.
Acionada, a Polícia Militar conseguiu desmobilizar os moradores. Depois que os agentes do ICMBio 
improvisaram uma segunda ponte, os policiais escoltaram a equipe até a cidade de Itaituba.
Esses episódios ocorrem em meio a reiteradas críticas de Bolsonaro contra o Ibama e o ICMBio. Em 
pronunciamento logo após o primeiro turno, ele prometeu acabar com a "indústria de multas" dos 
órgãos ambientais.
"Vamos botar um ponto final em todos os ativismos do Brasil. Vamos tirar o Estado do cangote de 
quem produz", prometeu, em referência aos órgãos ambientais.
A animosidade de Bolsonaro tem origem numa multa de R$ 10 mil que recebeu do Ibama após ser 
flagrado pescando dentro de uma unidade de conservação, em Angra dos Reis (RJ). Em retaliação, o 
deputado federal apresentou, em 2013, um projeto de lei que proibia agentes ambientais de portarem 
arma. Bolsonaro depois retirou a proposta, mas nunca pagou a multa.
Para agentes do Ibama e do ICMBio, as declarações de Bolsonaro alimentam a hostilidade contra os 
órgãos na Amazônia, onde já enfrentam dificuldades para atuar. No ano passado, por exemplo, os 
escritórios de ambos órgãos foram incendiados por garimpeiros ilegais em Humaitá (AM).
O capitão da reserva do Exército recebeu votação acima da média nacional (46%) nas regiões dos 
ataques. No Trairão, o candidato do PSL obteve 51,9% dos votos válidos. Em Buritis, o percentual 
chegou a 69,9%.
DENÚNCIASMenina negra é ameaçada em 
escola por colega: ”Aqui não é lugar para 
você; Bolsonaro vai resolver essa mistura
Foto: Nando Chiappetta/DP
Ayanna tem 10 anos. É negra. Estuda numa pequena escola particular no bairro de Candeias, 
Jaboatão dos Guararapes, e este ano não quis participar das comemorações do Dia das Crianças.
Em casa, relatou à família que tinha vivido uma ameaça logo após a divulgação do resultado do 
primeiro turno. Um menino, da mesma idade, se aproximou e disse: “Ayanna, aqui não é lugar para 
você. Você não vai poder estudar mais nesta escola porque não combina com sua cor. Sua família é 
negra e vocês têm que viver separados de nós. Bolsonaro já ganhou e garantiu que vai resolver essa 
mistura. Se seus pais vierem falar merda, a gente mete bala”.
Segundo contou a mãe, Josivânia Freitas, a filha foi vítima de uma sequência de outras frases 
intimidatórias e preconceituosas. Teria sido chamada de “burrinha” em ocasião anterior. E 
questionada: “Você estuda nesta escola por causa de bolsa?”, teria perguntado o mesmo menino a 
Ayanna.
A garota transferiu a pergunta à mãe: “Mamãe, o que é bolsa?”.
Josivânia explicou que era um benefício de gratuidade para alguns alunos, mas que, no caso dela, a 
escola era paga pela família. Ayanna chorou, não quis ir à escola nos dias seguintes e os pais 
analisam se será preciso transferir a menina da unidade educacional.
Ayanna é a única criança negra da série dela. Ela lembra de outras duas na escola; com uma 
diferença: Ayanna é cafusa, mistura de negra e índia, com descendência dos Xucurus de Pesqueira. 
Por isso, tem melanina mais forte que a das colegas do 5º ano.
“Chorei e não foi pouco. Minha filha vive no meio de uma ameaça. Tem medo de existir”, diz 
Josivânia, pedagoga, doutoranda em Educação Matemática e Tecnológica na UFPE, professora de 
pós-graduação em Psicopedagogia educacional da UniNabuco, de pós-graduação no Instituto 
Nacional de Ensino Superior (Inesp/Caruaru), do ensino fundamental em Jaboatão dos Guararapes e 
coordenadora pedagógica da Escola de Saúde do Recife (ESR).
“Pensei muito antes de falar, mas a situação chegou a um ponto que é necessário”, frisou a mãe, que 
chegou a publicar o caso no perfil pessoal dela no Facebook. As frases do menino foram levadas à 
professora.
“Não tenho críticas à escola nem ao projeto educacional deles. É muito organizada. Acho que é uma 
questão pontual, que vem de casa. A professora disse que determinaria as desculpas por parte do 
menino e que mandaria ele dar um abraço nela. Quem conhece minha filha sabe o quanto ela é 
carinhosa, mas eu proibi o abraço. Não quero que haja abraço se ele tem nojo de minha filha e se já 
disse que negro tem que servir”, pontuou a mãe.
Josivânia diz que viu as frases do menino como se fossem algo natural para ele – o que tornaria mais 
preocupante em tempos de intensificação de discursos preconceituosos semelhantes.
“Só penso como vai ser daqui pra frente se tivermos um representante que diz que lugar de negro é na senzala”, disse ela.
A doutoranda se declara mais incomodada com a banalização do racismo.
Conta que, logo após postar o relato sobre a filha no Facebook, recebeu uma ligação de uma colega 
da área de pedagogia minimizando o fato e dizendo que seria “muito fácil resolver”, que “não foi 
trauma grande porque não aconteceu nada demais” e que ela saberia como conduzir.

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