segunda-feira, 12 de março de 2018

O ENCONTRO ENTRE VOVÔ ADAMS E O MORDOMO LADRÃO


Segurança? Me engana que eu gosto... (Crédito: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASIL, O PAÍS ONDE A PRESIDENTE DO STF RECEBE UM INVESTIGADO POR 
FORMAÇÃO DE QUADRILHA

POR FERNANDO BRITO

Cármen Lúcia jamais teve uma liderança real no Supremo Tribunal Federal, antes de cair-lhe ao colo
a liderança formal que a presidência da corte lhe dá.
Teve um ou outro momento de brilho – sobretudo no caso da liberação de biografias não-autorizadas 
– mas foi, em geral, presença discreta e silenciosa nas questões julgadas no STF.
Sua falta de comando evidenciou-se, mais do que em qualquer outro momento, no julgamento sobre 
a suspensão do exercício do mandato de Aécio Neves, quando proferiu um voto confuso, no qual não 
teve a coragem de perder com a minoria e foi contestada pelos dois lados: tanto por quem defendia a 
incompetência do Supremo para impedir o exercício de um mandato parlamentar quanto pelo próprio 
ministro Luís Edson Fachin, que sustentava o oposto e foi derrotado.
Ao receber Michel Temer em sua casa, na mesma semana em que o ocupante do Planalto encara 
duas decisões amargas de seus pares (e ambos parte de seu fraco apoio interno: o próprio Fachin, 
figura diminuta, e Luis Roberto Barroso, uma mariposa jurídica), a presidente do STF se 
enfraqueceu de uma forma que não poderia ter feito.
É evidente que o encontro privado e domiciliar com o presidente investigado, ainda que possa ter 
sido pedido com o argumento de que se trataria da intervenção do Rio de Janeiro, teve outros 
objetivos, ainda que cerimoniosamente tratados. O que é cerimonioso, porém, precisa de olhos que o 
observem, sob pena de suspeitar-se nele cumplicidade.
Pode-se argumentar, com razão, que é tema que exige entendimento entre quem ordena a intervenção 
e quem a legitima juridicamente. Mas, manifesto o desejo de expor as condições em que se realiza a 
ação excepcional de intervenção, a presidente do STF só se engrandeceria ao atender ao pedido no 
próprio Supremo e com a presença de seus pares.
Se não o fez, denota um de dois desejos: ou de se pretender “dona”, que não é, da vontade do 
Tribunal ou, o de obter apoio interno da “bancada do Temer” no Supremo. Em qualquer hipótese, um 
tiro no pé, pois a leitura é a da cooptação.
Porque, a qualquer olho míope que seja, a visita do presidente neste sábado é tão natural quanto as 
pedaladas que ele deu, para as câmaras de TV, hoje, no Palácio do Jaburu, nas quais só faltaram as 
“rodinhas”, de tão à vontade que estava.
As cenas de marketing são semelhantes no ridículo e no inócuo.
Mas revelam que ambos, Temer e Cármen, cuidam mais de não cair do que de andar para a frente.

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