quinta-feira, 24 de março de 2016

‘A PM AGE COMO CACHORRO LOUCO CONTRA NÓS’: ENTREVISTAMOS A GAVIÕES


Tratados na pancadaria: Kleber, da Gaviões.

por Pedro Zambarda de Araujo 

O Corinthians venceu o Linense por quatro a zero num jogo que mostrou o técnico Tite em forma 
com o time titular no Campeonato Paulista dentro do estádio de Itaquera. Aquele jogo do Timão 
jogando em casa no sábado, 19 de março, poderia ter acabado em festa, mas teve pancadaria da 
Polícia Militar na Gaviões da Fiel.
Munidos de cassetetes, a PM bateu numa torcida que berra “calma, não precisa disso” nos vídeos que 
eles mesmos gravaram naquele momento.
No dia seguinte, a torcida organizada soltou uma nota dura à imprensa, cobrando um posicionamento 
do próprio Corinthians sobre essa violência sem qualquer razão. “Gaviões da Fiel vem a público 
lamentar que em tempos de democracia, o motivo mais aparente para se suspeitar das ações policiais, 
seja justamente a tentativa de uma censura opressiva”, diz o comunicado.
A polícia alega que as manifestações públicas da Gaviões contra a Rede Globo e o deputado tucano 
Fernando Capez são ilegais dentro dos estádios. Para tentar entender melhor o que está acontecendo, 
o DCM foi até a sede e conversou com Kleber Miguel, um dos diretores da torcida.
Kleber falou sobre a atitude desmedida da PM nas arquibancadas, como a imprensa colabora para 
permitir essas agressões gratuitas e como a Gaviões apenas protesta para trazer melhorias e 
reivindicações de quem apenas assiste o futebol em São Paulo.
A imprensa estigmatiza normalmente as organizadas e diz sempre que vocês são bandidos. Isso 
contribui para piorar tudo?
Os jornalistas fazem isso toda hora. A imprensa infelizmente faz este tipo de trabalho contra a gente. 
Eles mostram o que é conveniente, certo? Editam e fazem acreditar que aquela é a verdade e, muitas 
vezes, não é bem aquilo.
Muita gente vem falar conosco com o objetivo de nos prejudicar. Ninguém fala, por exemplo, de 
ações que a Gaviões faz muitas vezes sem divulgar. A torcida tem muitas ações sociais com 
comunidades carentes que não são foco da mídia. Gaviões da Fiel faz Dia dos Pais, de Mães e até 
dos Namorados com os nossos associados.
Antes do sábado de Páscoa, a torcida doa ovos de chocolate para as crianças carentes aqui do Bom 
Retiro. A gente chega a atender quatro mil meninos por aqui. Ninguém da imprensa se importa com 
isso e a gente até perdeu a vontade de falar sobre. Agora se o Zezinho estiver com uma camiseta 
preta e der uma pedrada num ônibus, fodeu. Porque ai é sempre culpa da Gaviões. É culpa de 
qualquer torcida organizada, não só da nossa.
Os jornalistas denigrem completamente a nossa imagem e isso é inquestionável. Por tudo isso ai, a 
imprensa ajuda a PM na opressão das organizadas sim, embora a ESPN tenha criticado a polícia na 
última violência que fizeram contra nós. O repórter deles disse, ao vivo, que não conseguia acreditar 
no que um capitão da Polícia Militar estava dizendo. Foi uma das poucas vezes que vi a mídia agir 
de um jeito diferente conosco.
Vocês sentem que a Polícia Militar de São Paulo endureceu mais depois que a Gaviões falou 
abertamente sobre a Globo?
Eles endureceram e o que pega pra corporação é o fato da gente protestar. A PM diz que nossos 
cartazes são um material que não pode entrar no estádio. Todo jogo tem uma reunião com a polícia 
antes. A gente senta lá no Segundo Batalhão do Choque e eles sempre questionam como esse 
material acaba chegando até o jogo.
Estamos vivendo um momento político em que as pessoas estão todas na rua pedindo alguma coisa 
diferente. Sinceramente a gente se preocupa com a nossa área que é o futebol e ele anda muito 
elitizado. O ingresso é caro não só pra nós das organizadas, mas também pros torcedores. Tem setor 
por 180 reais o ingresso. É caro.
A PM endurece quando reclamamos, mas o governo não oferece transporte pública pra torcida 
enquanto a Rede Globo exibe os jogos no final da noite. Eles alegam que nossas faixas são ilegais, 
mas é um protesto pacífico o que fazemos. A gente não ofende pessoa alguma de graça. O que 
fazemos é cobrar. A gente fala da Federação Paulista e da CBF. São todos da banda podre.
A Gaviões sente um descontrole da PM nos jogos?
Os caras são treinados para ser cachorro louco, né? A gente sabe que o Choque é treinado pra isso ai. 
Quando rola porrada, aquele momento é o deles. O policial lava a alma dele ali e desconta em 
pessoas que não tem nada a ver. Se você pegar muitas das imagens que circulam por ai, tem gente 
que pede calma e apanha. Quando um cara tenta tirar uma criança da confusão da torcida, se bobear 
ele apanha da PM.
Dão tiro de borracha a torto e a direito. Creio que a ordem é essa, embora eu não acredite que o cara 
seja instruído a acertar o olho de ninguém. Tivemos casos em 2006 de dois torcedores cegos dentro 
do estádio. Você senta na reunião com eles e dizem que estamos retrocedendo na conversa. Mas 
acho que quem voltou mais atrás foram eles. Não vivi a ditadura, mas nunca vi uma opressão tão 
grande quanto agora.
Vocês protestam contra a Polícia Militar?
Não, a gente nunca protesta contra a PM, porque não queremos nada com a polícia. Para falar bem a 
verdade, eles não fedem e nem cheiram. Mas os caras sempre querem algo contra a gente. Os caras 
são cão de guarda do governador. O pessoal no jogo do último sábado já estava se retirando, 
cantaram algumas músicas mostrando que estão cansados da opressão e eles não aguentam nem isso. 
Se você reclamar que estão batendo em você, a PM vai lá e bate mais.
Vi a Gaviões anunciar que iria no protesto pela democracia com a presença de Lula numa sexta-feira. 
Vocês são contra o PSDB, como no caso da merenda e do Fernando Capez?
Na verdade nós não temos posicionamento político como torcida organizada. Não tomamos lado 
mesmo. Somos apartidários. Se o Capez fosse do PT, a gente estaria protestando igualmente, porque 
a gente se preocupa com a merenda da molecada. Eu pessoalmente nem saio da minha casa pra votar.
Só que tem aquele ditado, né mano? O certo é o certo. E não tem duas verdades. Se o cara tá errado, 
a gente vai lá e reclama. E também não impedimos as manifestações políticas de nenhum dos nossos 
filiados. Tem corinthiano que é petista, tem cara que é tucano. Tem todas as bandeiras na nossa 
torcida.
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