segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

DAVID BOWIE, CHICO BUARQUE E NÓS


RIP

"David Bowie morreu em paz hoje cercado por sua família após uma corajosa batalha de 18 meses com câncer. Enquanto muitos de vocês vão compartilhar essa perda, nós pedimos que respeitem a privacidade da família durante o seu tempo de luto", diz um comunicado divulgado neste domingo, em sua página oficial no Facebook; Bowie foi um dos maiores artistas da sua geração e alcançou o estrelato com o álbum The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars, de 1972; entre seus sucessos, estão "Ziggy Stardust", "Starman", "Let's Dance", "Space Oddity", "Heroes", "Under Pressure", "Rebel, Rebel", "Life on Mars" e "Suffragette City"; ele havia acabado de lançar seu mais novo álbum, Blackstar, na última sexta-feira, pelo qual recebeu críticas positivas; vídeos.




O primeiro disco de vinil que comprei, aos 16 anos, foi The Rise and Fall Ziggy Stardust and the 
Spiders from Mars, de David Bowie.
Ouvi este disco, às vezes mais e às vezes menos, a vida toda. Entra em qualquer lista curta dos 
maiores do rock.
Nem preciso dizer, assim, quanto me entristeceu a notícia da morte de Bowie, neste domingo, aos 69 
anos.
Mas é sobre um aspecto paralelo que quero tratar.
As manifestações de pesar logo se multiplicaram. A primeira de impacto veio de Ricky Gervais, 
pouco tempo depois de ter apresentado o Globo de Ouro.
Eram muito amigos. “Perdi um verdadeiro herói”, disse Gervais no Twitter.
Muitos outros roqueiros e artistas expressaram sua dor. Mas fui ler com mais atenção as palavras da 
chamada voz rouca das ruas, nos comentários dos artigos sobre a morte.
Foi emocionante.
O tom geral era de agradecimento a Bowie por tantas coisas boas que ele proporcionou a todos por 
todos estes anos. Bowie musicou memórias de várias gerações. Se eu fosse resumir o que as pessoas 
diziam seria assim: “Obrigado por haver existido, David.”
E então chego ao ponto que eu queria fazer.
A diferença entre uma sociedade que cultua seus heróis e uma sociedade que os deixa expostos a 
agressões de vândalos.
Me veio à cabeça o ataque a Chico no Leblon, poucas semanas atrás.
É doente uma sociedade em que um playboy inútil que vive do dinheiro da família se acha no direito 
de dizer para Chico, à queima roupa, que ele é um “merda”.
Isso porque o playboy não concorda com as ideias políticas de Chico. Chico está com o povo e o 
playboy, claramente intoxicado pelo noticiário envenenado da mídia, com a plutocracia.
Num mundo menos imperfeito, o playboy aproveitaria a chance de topar com Chico na noite carioca 
para agradecer a ele por tantas coisas boas que ele criou. Tiraria selfies com Chico e as mostraria 
orgulhoso a seus pais. Certamente em algum momento eles namoraram ouvindo Chico.
Poderia até dizer que discorda das posições políticas de Chico, mas em tom civilizado, tolerante, 
democrático, e entre risos. Mas deixaria claro que o importante ali era reconhecer a grandeza do 
maior compositor da história da MPB.
Mas nosso mundo está longe de ser perfeito, e aconteceu o que todo mundo sabe.
Pensei em Bowie, nesta manhã triste, e pensei também em Chico.
E vi que nossa sociedade está doente.






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