segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O DISPARATE DO JUIZ MORO


Conflito de interesses. Mídia e Justiça têm que manter distância uma da outra

O juiz Sérgio Moro vai cometer um disparate hoje.
Ele vai participar, como convidado de honra, de um seminário promovido pela ANER, associação 
que faz o lobby das revistas.
A ANER é controlada pela maior editora de revistas, a Abril.
Moro, como juiz, deveria recusar este convite por significar conflito de interesses. A não ser que ele 
considere editoras de revistas acima da lei.
Num mundo menos imperfeito, Justiça e imprensa se autofiscalizam, a uma distância exigida pela 
decência.
Mas no Brasil elas se abraçam e confraternizam, como se vê em coisas como as alegres imagens em 
que Merval e Gilmar Mendes sorriem para as câmaras como dois bons camaradas.
Moro já tropeçou uma vez nisso ao aceitar um prêmio da Globo. É abjeta, do ponto de vista ético, a 
foto em que ele e João Roberto Marinho estão juntos no palco na entrega do prêmio.
Como Moro poderia julgar qualquer coisa relativa à Globo depois disso? Com que isenção?
Sua presença num evento da Abril é ainda pior, dada a ostensiva e frequentemente desonesta 
perseguição movida pela Veja contra Lula e o PT.
Moro está simbolicamente chancelando a atitude da Veja. Está sendo partidário, o que é o túmulo da 
Justiça.
Ridículo também é o tema sobre que ele aceitou palestrar no encontro: o papel da imprensa na Lava 
Jato.
Moro não tem a menor condição de discutir este assunto. Se soubesse alguma coisa sobre o tema, 
diria sinteticamente: “Jornais e revistas têm que fazer o oposto do que vem fazendo. Devem apurar 
com profundidade e isenção, e não podem confiar cegamente em fontes que passam vazamentos 
sempre contra um lado só. Vocês viram o que aconteceu com o Lauro Jardim? Pois é. Façam o 
oposto do Lauro e de tantos outros.”
Me pergunto, às vezes, se Moro não tem noção.
Mas sim, ele tem, e isso torna pior o quadro. Uma prova disso é que ele recusou, nestes mesmos dias, 
uma homenagem do Congresso.
Alegou que investiga muitos ali.
Seria louvável, se isso fosse uma norma para ele. Como não é, a suspeita que fica é que, na verdade, 
ele estava fugindo de alguma cena potencialmente constrangedora. Por exemplo, palavras de ira de 
algum deputado que se considere injustiçado pela Lava Jato.
Moro é seletivo até na hora de receber tributos.
Este da ANER é particularmente ofensivo para a sociedade. Quando juízes servem a interesses 
políticos, quem perde somos todos nós.
Alguns dão a isso o nome de bolivarianismo.
Não me ocorre definição melhor quando um juiz se junta a uma festa organizada por uma revista que 
representa no grau extremo a partidarização da notícia.
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