terça-feira, 11 de novembro de 2014

RESOLUÇÃO PETISTA ANUNCIA GIRO HISTÓRICO



por Breno Altman

Chamam atenção, na velha mídia, os ataques cerrados e as críticas virulentas contra as últimas 
deliberações da direção do Partido dos Trabalhadores, em reunião de sua Comissão Executiva 
Nacional, realizada no dia 3 de novembro.
Quais as razões, afinal, para o documento aprovado pelo comando petista ter alcançado esta 
repercussão e provocado repulsa em determinados setores?
O primeiro motivo parece saltar aos olhos.
Há quinze dias a imprensa tradicional, a oposição de direita, as frações mais conservadoras da base 
governista e os áulicos do mercado só fazem chantagear a presidente reeleita. Exercem pressão para 
que o programa derrotado seja assumido pelo Planalto, como pré-condição para a pacificação política e 
econômica do país.
O PT rechaçou, com firmeza, a hipótese de capitulação condicional embutida nesta chantagem. Pode 
ou não ser acompanhado pela chefe de Estado, mas propôs abertura de um novo ciclo de mudanças, 
além de escalada contra fortificações do bloco político e de classes derrotado em outubro.
Mas a reação iracunda não se explica apenas porque os petistas se recusam a recuar diante de quem foi 
batido pela soberania das urnas.
Muito do nervosismo contra o texto vem de um trecho fundamental: “é urgente construir hegemonia na 
sociedade, promover reformas estruturais, com destaque para a reforma política e a democratização da 
mídia.”
Apesar dos cuidados para não ferir suscetibilidades internas, desponta como evidente uma certa 
autocrítica.
A continuidade do processo inaugurado em 2003 passou a depender, na nova abordagem, da 
refundação de instituições do Estado e da informação que bloqueiam o aprofundamento e a aceleração 
das demais reformas. Esse não era um ponto de vista prevalecente nas hostes petistas durante o período 
anterior.
O furor do conservadorismo contra o conceito de hegemonia, rotulando-o de “autoritário”, por sua vez, 
mal disfarça determinação em proteger a própria hegemonia oligárquico-burguesa através de entulhos 
herdados da ditadura militar, tais como o sistema político controlado pelo poder econômico e o 
monopólio dos meios de comunicação.
Os propósitos reformadores da resolução petista tampouco esgotam as explicações para o desconforto 
da direita. A irritação também se manifesta quanto ao caminho que o partido de Lula estaria decidido a 
trilhar para defender as mudanças.
“As eleições de 2014 reafirmaram a validade de uma ideia que vem desde os anos 1980: para 
transformar o Brasil, é preciso combinar ação institucional, mobilização social e revolução cultural”, 
ressalta o texto.
E diz mais: “será necessário, em conjunto com partidos de esquerda, desencadear um amplo processo 
de mobilização e organização dos milhões de brasileiros e brasileiras que saíram às ruas para apoiar 
Dilma Rousseff, mas também para defender nossos direitos humanos, nossos direitos à democracia, ao 
bem-estar social, ao desenvolvimento, à soberania nacional.”
Trata-se de notável guinada em relação aos últimos anos, quando a governabilidade esteve pensada 
quase exclusivamente em termos institucionais e dependente de acordos parlamentares cujo preço 
inevitável era o rebaixamento programático, quando não a conspurcação da imagem petista.
A própria política de alianças, na referida resolução, recebe nova embocadura.
Sem desconsiderar a necessidade de impedir, dentro do Congresso, a formação de uma maioria de 
centro-direita que paralise o governo, o PT decide “compor uma ampla frente onde movimentos 
sociais, partidos e setores de partidos, intelectuais, juventudes, sindicalistas possam debater e articular 
ações comuns, seja em defesa da democracia, seja em defesa de reformas democrático-populares”.
No centro da plataforma que poderia constituir esta “ampla frente” está a defesa de plebiscito para 
convocação de Constituinte exclusiva sobre o sistema político.
Outros itens de relevo, anunciados pelo partido, seriam a adoção de lei para democratização da mídia,
o decreto de participação social, o fim do fator previdenciário, a redução da jornada de trabalho para 40 
horas semanais, as reformas agrária e urbana, a desmilitarização das polícias militares, mais 
investimentos em serviços públicos e revisão da Lei de Anistia.
Destaca-se igualmente, na deliberação petista, a seguinte afirmação: “o partido tem que retomar sua 
capacidade de fazer política cotidiana e sua independência frente ao Estado, …deve buscar participar 
ativamente das decisões acerca das primeiras medidas do segundo mandato, em particular… é preciso 
incidir na disputa principal em curso, as definições sobre os rumos da política econômica.”
A reviravolta de atitude manifesta-se também neste tema. Por vários anos, em seguida ao triunfo 
eleitoral de 2002, o PT aparentava ter optado por ser prioritariamente braço parlamentar do governo. 
Não destacamento de vanguarda, impulsionador de ideias e movimentos, mas repartição na retaguarda, 
relativamente desprovida de autonomia e iniciativa, além de fortemente estatizada.
Curiosamente, no seio de um governo de coalizão, fruto de cenário no qual a esquerda não tem maioria 
parlamentar, o principal partido oficialista talvez fosse o único a evitar protagonismo nos embates 
internos e na sociedade para estabelecer decisões governamentais.
Este conjunto de paradigmas fixado pela resolução deixa poucas dúvidas, mesmo que não esteja dito 
com todas as letras, sobre o fato de o PT estar empenhado em formidável virada na sua formulação 
política.
O documento da Executiva Nacional, aliás, consolida tendência nascida na leitura das manifestações 
de junho do ano passado.
Retirado abruptamente de sua zona de conforto, o petismo viu-se obrigado a reanalisar o fôlego da 
estratégia vigente, os impasses no programa de reformas, a relação entre partido e governo, a 
combinação entre institucionalidade e lutas sociais, a questão da participação popular e da 
democratização do Estado.
Idas e vindas neste esforço de retificação puderam ser observadas ao longo dos últimos meses, mas as
condições dramáticas das últimas eleições presidenciais provavelmente determinaram a decantação do
texto aprovado pelo estado-maior petista.
Ainda que possam ser feitas várias críticas pontuais – por exemplo, a ausência de referências à questão
ambiental -, a citada resolução tem caráter histórico.
Claro que sua legitimidade depende de unidade, habilidade e força para implementar os enunciados ali
contidos. A presidente e o governo podem ou não ser influenciados pelo pensamento emanado da
direção petista. A realidade pode ou não dar razão às novas ideias. Nada disso, porém, tira a relevância 
do que foi decidido.
Talvez seja reconhecido, no futuro, como documento tão importante quanto as deliberações do V
Encontro Nacional, de 1987, responsáveis pelas balizas do processo que, quinze anos depois, levaria à
vitória de Lula.
A esquerda, a propósito, exibe tradição de dar nomes especiais a textos que forjam giros fundamentais
em sua política.
As recentes decisões petistas, quem sabe, um dia venham a ser identificadas como “Resolução da
Primavera”. Menos pela estação na qual foi concebida, mais por aceitar o risco de ver cem flores
desabrocharem, como diria o revolucionário chinês Mao Tsé-Tung.
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