Do jornalista e doutorando em Comunicação da UFRJ, Luiz Felipe Ferreira Stevanim, em
artigo sobre “coronelismo eletrônico” publicado no Jornal GGN:
Desde os tempos de Sarney e de seu ministro das Comunicações, Antonio Carlos Magalhães, o
Desde os tempos de Sarney e de seu ministro das Comunicações, Antonio Carlos Magalhães, o
coronelismo eletrônico não se mostrava tão próximo da presidência da República.
Neto de um tradicional político, o candidato Aécio Neves possui ligações com três rádios, uma
Neto de um tradicional político, o candidato Aécio Neves possui ligações com três rádios, uma
emissora de TV e um jornal. O fenômeno – que chamamos de “coronelismo eletrônico” – inclui o uso
político dos meios de comunicações e uma rede de favores e apadrinhamento que busca perpetuar o
poder de determinado grupo nas comunicações e na política. Aécio, que é senador, descumpre o que
está disposto no artigo 54 da Constituição Federal, que proíbe que os parlamentares sejam
proprietários, diretores ou controladores de empresas concessionárias de serviço público.
O candidato é sócio da Rádio Arco-Íris (FM 99,1 MHz), sediada em Betim, na zona metropolitana de
Belo Horizonte, e retransmissora da Jovem Pan para a Grande BH. Uma breve consulta no Sistema de
Informação dos Serviços de Comunicação de Massa (SISCOM) da Anatel comprova este fato.
Segundo matéria da Folha, o governo de Minas se recusou diversas vezes a divulgar os repasses
estaduais às emissoras ligadas ao candidato.
Mas isso é só o que aparece aos olhos. O coronelismo eletrônico é mais sutil, menos evidente, mais
Mas isso é só o que aparece aos olhos. O coronelismo eletrônico é mais sutil, menos evidente, mais
sorrateiro. Para entendê-lo, é preciso ir mais fundo, em busca do rabo da palavra, como diria o bom
mineiro Guimarães Rosa.
Uma vertente importante deste fenômeno é a relação das rádios e TVs com familiares de políticos. O
principal acionista da Rádio São João Del Rei (970 AM) é Tancredo Augusto Tolentino Neves, que
tem o mesmo nome do presidente eleito em 1985, seu pai. Advogado, Tancredo Augusto é tio de
Aécio Neves e assumiu em 2010 a presidência da Prominas, empresa pública estadual encarregada de
promover eventos na área de turismo e administrar grandes centros de convenções, como o
Minascentro e o Expominas.
A irmã de Aécio, Andrea Neves da Cunha, jornalista responsável pelas principais decisões referentes à
comunicação na campanha do candidato à presidência, é a principal sócia e diretora da rádio Vertentes
(FM 95,3), na mesma São João Del Rei. A rádio é conhecida pela programação musical, voltada
principalmente para o público jovem.
Cidade histórica encravada no coração de Minas, com cerca de 88 mil habitantes, São João Del Rei
Cidade histórica encravada no coração de Minas, com cerca de 88 mil habitantes, São João Del Rei
possui uma TV educativa, a TV Campos das Vertentes. Minas é o estado com mais televisões
educativas, uma parcela considerável delas controlada por políticos, como Suzy dos Santos e eu
apontamos em nosso artigo “Porteira, radiodifusão, universidade etc.” publicado na Revista Brasileira
de Políticas de Comunicação da UnB.
A TV compõe o conjunto de veículos sob influência direta da família de Aécio Neves. A concessão
para o canal é de 2002, quando o ministro das Comunicações era Pimenta da Veiga, candidato
derrotado ao governo do estado de Minas. O presidente da Fundação Cultural Campos das Vertentes é
José Geraldo D´Ângelo, aliado de Aécio que assumiu a presidência do Instituto Cultural Banco de
Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG Cultural), em 2003, quando o neto de Tancredo era
governador. A fundação também possui uma outorga de rádio FM (a rádio Campos de Minas, 95,3
MHz).
A influência do coronelismo eletrônico alcança também as velhas letras. O jornal “Gazeta de São João
A influência do coronelismo eletrônico alcança também as velhas letras. O jornal “Gazeta de São João
Del Rei” tem como diretor de honra (in memoriam) o cunhado de Aécio, Herval Cruz Braz, marido
falecido de Andrea. Com tiragem de 10 mil exemplares, a notícia que estampava a capa da edição de
11 de outubro de 2014 era: “Aécio dispara no segundo turno”.
As vertentes do coronelismo eletrônico, que deságuam nas condutas políticas de nomes como Sarney,
ACM, Collor e Aécio Neves, é um prejuízo à liberdade de expressão e ao direito dos cidadãos à
comunicação. Esse direito pouco compreendido, mas essencial à democracia, inclui o acesso à
informação livre e de qualidade e a possibilidade real de expressão e participação política.
Dos sinos da velha São João Del Rei ou das montanhas de Belo Horizonte, uma pergunta ecoa até nós:
O que esperar das políticas de comunicação do candidato pleiteante ao principal cargo da República?
O silêncio não pode ser a resposta.
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