sábado, 19 de outubro de 2013

As entrevistas de Serra



Há tempos aponto o esvaziamento intelectual de José Serra. É incapaz de uma entrevista com uma ideia original sequer. Não consegue desenvolver teses sobre nenhum dos grandes temas contemporâneos, políticas sociais, inovação, abertura comercial, desindustrialização.
A exemplo do Conselheiro Acácio, seu repertório de respostas limita-se a identificar um aspecto (negativo) em qualquer tema que lhe é perguntado e apenas um. Dois, dá tilt. É incapaz de ir ao centro da questão, apontar o fator central e desenvolver uma ideia minimamente sofisticada. São chavões de bar em cima de bordões de turba, um niilismo medíocre e cansativo.
Se fosse um historiador bíblico indagado sobre a caminhada do Calvário de Cristo, responderia com ar grave: "Não gostei da Maria Madalena ter invadido a rua com aquela toalha".
Sobre o suicídio de Sócrates, não tergiversaria: "Não tem cabimento tomar qualquer coisa sem testar".
Sobre a descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral: "Um absurdo errar a rota daquela maneira".
E sempre com o ar grave de quem pensou profundamente a resposta. Seu discurso político reduziu-se a isso: para cada tema, UM fato negativo qualquer tratado como se fosse relevante.
Confira na matéria do Valor, sobre a coletiva que ele deu ontem no Congresso.
Sobre a licitação de Libra - há um conjunto de análises a se fazer. O fato das candidatas serem estatais chinesas melhora o preço, de um lado, pode trazer conflitos de interesse do outro. As relações entre governo-Petrobras-estrangeiras serão contratuais, documentos legais reconhecidos por tribunais internacionais. A China é importante para o Brasil, por ser compradora de matéria prima. O Brasil é estratégico para a China por ser fornecedor. Qual a relação de dependência?
Qual a garantia nas negociações com sócios soberanos? Abrem-se possibilidade de novas relações Brasil-China, para o bem ou para o mal. Única avaliação de Serra: "Quem diria que o Brasil um dia iria caminhar para ser colônia da China?". É o Conselheiro Acácio sem polainas.
Sobre a hipótese de dobradinha com Aécio - há inúmeras considerações a serem feitas sobre vantagens e desvantagens de chapas puro sangue, sobre as alianças, sobre a relevância dos colégios eleitorais de São Paulo e Minas. Opiniao de Serra: "Delirar é livre delirar, podemos especular sobre qualquer assunto, mas não faz muito sentido".
Sobre a dobradinha Marina-Campos - comporta inúmeras avaliações sobre a divisão do meio empresarial, sobre transferência ou não de votos, sobre terceira via. Consideração de Serra: "Foi uma aliança surpreendente e seus efeitos e consequências estão por vir. É muito difícil fazer previsões, muito cedo para avaliar".
Sobre Dilma sugerir que adversários estudem - "Se a presidente Dilma estudou antes, não aprendeu. Se estudou no governo, também não está aprendendo. E governo não é para fazer curso de graduação e pós-graduação. Quem entra no governo já tem que entrar sabendo das coisas. Até para não começar errado e perder tempo".
E terminou brilhantemente, com considerações clássicas e profundas sobre a expressão "para o que der e vier": "Uma coisa é o que der e vier, outra coisa é se conviria do ponto de vista político ou não. Acho prematuro falar dessa situação (de ser candidato a deputado)".
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